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Jornal OPaís por Jornal OPaís
18 de Junho, 2026
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Uma reflexão sobre o Dia Mundial do Combate à Desertificação e à Seca – 17 DE JUNHO

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Todos os anos, a 17 de Junho, o mundo assinala o Dia Mundial do Combate à Desertificação e à Seca. Para muitos, trata-se apenas de mais uma data inscrita no calendário das Nações Unidas. Para Angola, porém, deveria ser um momento de profunda reflexão nacional.


A desertificação não chega com o dramatismo de uma inundação nem com a violência de um ciclone. Avança silenciosamente. Instala-se devagar. Rouba a fertilidade do solo, seca rios e lagoas, elimina pastagens, empobrece famílias e compromete o futuro das próximas gerações.
No sul de Angola, particularmente nas províncias do Cunene, Namibe e Huíla, os sinais são visíveis. A paisagem transforma-se. Onde antes existiam campos de pastagem, surgem extensões de solo exposto. Onde havia água durante grande parte do ano, restam apenas memórias. Onde a pecuária representava riqueza e estabilidade, muitas famílias enfrentam hoje um cenário de incerteza permanente.
Mas a desertificação não é apenas um problema ambiental.
É também um problema económico, social e humano.
Quando uma família perde o seu gado por falta de água e alimento, perde igualmente a sua principal fonte de rendimento. Quando uma colheita falha devido à seca prolongada, a insegurança alimentar aumenta. Quando os jovens abandonam as comunidades rurais em busca de sobrevivência nos centros urbanos ou além-fronteiras, estamos perante uma consequência direta das alterações ambientais.
A verdade é que a desertificação produz aquilo que muitos especialistas designam como pobreza ecológica: a incapacidade de um território gerar recursos suficientes para sustentar a vida das suas populações.


Nos últimos anos, Angola realizou investimentos significativos para responder aos efeitos da seca. O Canal do Cafu tornou-se um símbolo nacional desta resposta. Milhares de famílias passaram a ter acesso à água e o gado encontrou melhores condições de sobrevivência. Contudo, seria um erro acreditar que uma única infraestrutura pode resolver um problema estrutural.
A seca é uma consequência. A desertificação é uma das causas.
Por isso, a solução exige uma visão integrada que combine gestão sustentável da água, recuperação dos solos degradados, reflorestação, agricultura resiliente ao clima, proteção das bacias hidrográficas e fortalecimento dos meios de subsistência das comunidades.
Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que as respostas não devem vir apenas da ciência moderna.
Os povos pastoris do sul de Angola carregam conhecimentos acumulados ao longo de séculos. Os sistemas tradicionais de transumância, a observação dos ciclos naturais e a gestão comunitária dos recursos continuam a oferecer lições valiosas para os desafios actuais.
O futuro da adaptação climática passa precisamente pelo encontro entre o conhecimento científico e os saberes ancestrais.
Outra preocupação crescente é a pressão exercida sobre os recursos florestais. Em muitas regiões, a produção de carvão vegetal tornou-se uma estratégia de sobrevivência. O problema é que aquilo que garante rendimento no presente pode comprometer a sustentabilidade do território no futuro.


Não basta proibir o corte de árvores. É necessário criar alternativas económicas reais. Energias renováveis, agroecologia, apicultura, turismo sustentável, economia circular e cadeias de valor verdes podem gerar rendimento e, simultaneamente, proteger os ecossistemas.
Angola dispõe hoje de estratégias, planos nacionais e compromissos internacionais alinhados com a Agenda 2030 das Nações Unidas, a Agenda 2063 da União Africana e os objetivos globais de neutralidade da degradação da terra.


O desafio não reside apenas na existência dos documentos.
O verdadeiro desafio está na sua implementação.
São necessários financiamento, capacidade técnica, coordenação institucional e, sobretudo, transformar as metas em resultados concretos.
Talvez a maior batalha seja a da consciência colectiva.


Ainda olhamos para a desertificação como um problema distante, restrito às zonas mais áridas do país. No entanto, quando a terra perde produtividade, toda a economia nacional sente os efeitos. A segurança alimentar é afetada. Os custos sociais aumentam. A pressão sobre os recursos públicos torna-se maior.
Por isso, este 17 de Junho deve ser mais do que uma comemoração.
Deve ser um apelo.
Um apelo às instituições públicas e privadas, associações para reforçarem os investimentos na restauração da terra.
Um apelo ao sector privado em particular, para integrar a sustentabilidade nas suas decisões.
Um apelo às escolas para formarem uma nova geração de cidadãos sustentavelmente conscientes.


Um apelo aos meus colegas ambientalistas para colocarem as questões da desertificação no centro do debate nacional, mesmo na sociedade civil, e um apelo a cada angolano para compreender que proteger a terra significa proteger a vida.
Porque a desertificação não é apenas a perda do solo.


É a perda de oportunidades.
É a perda de resiliência.
É a perda de futuro.


E o futuro de Angola dependerá, em grande medida, da capacidade que tivermos hoje para restaurar, conservar e valorizar os recursos naturais que sustentam a nossa existência.
Neste Dia Mundial do Combate à Desertificação e à Seca, a mensagem é clara: não herdamos a terra dos nossos antepassados; recebemo-la emprestada das gerações que ainda estão por nascer.

Por Miguel Kinavuidi

Ambientalista & Consultor Internacional

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