Quem viveu ao longo dos anos em que o apartheid predominava na África do Sul é impossível não tecer quaisquer considerações sobre o que se vive actualmente neste país.
Durante anos, os sul-africanos negros eram segredados, não podendo frequentar os mesmos locais que os habitantes brancos, muitos dos quais continuam a manter o poder económico e social no país.
Foi segregação racial que fez com que muitos sul- africanos partissem para outras realidades, enquanto outros lutavam a nível interno. Angola, por exemplo, acolheu, durante anos, refugiados sul-africanos, assim como algumas das figuras que vieram posteriormente a se destacar como os líderes depois do fim do apartheid.
Durante muitos anos, conforme pressagiou o Presidente António Agostinho Neto, na África do Sul estava também ‘a continuidade da nossa luta’.
Foi este desejo, de se libertar o último reduto em que os africanos ainda se sentiam impedidos de tudo, que fez com que muitos países do continente se envolvessem, alguns de forma directa e outros indirectamente.
O fim do apartheid, a libertação da África do Sul e a chegada ao poder do primeiro presidente negro, Nelson Mandela, que acabara de ser liberto de uma prisão de vários anos, encheram o mundo de orgulho e esperança sobre dias promissores neste país do continente negro.
Durante anos, um processo de empoderamento aos negros, denominado ‘Black Empowerement’, prespectiva uma melhoria das condições sociais dos negros sul- africanos e maiores oportunidades de negócios e, consequentemente, postos de trabalho para os seus cidadãos.
Nos últimos dias, em algumas regiões, os sul-africanos implementaram o Movimento Dudula, cuja missão é expulsar estrangeiros de raça negra para os seus países de origem.
Estão, entre as suas vítimas, moçambicanos, zimbabweanos, nigerianos e até angolanos. Dizem os promotores de tal iniciativa que estes cidadãos ocupam os seus postos de trabalho, acesso a residências e também pressionam os serviços de saúde locais.
Curiosamente, muitos são originários de países que, num passado não muito distante, se doaram a favor da causa sul-africana, mas hoje passam por inimigos que deve regressar aos seus países.
Alguns países já pediram explicações ao Governo sul- africano. Não obstante a isso, o Dudula parece crescer para outros territórios, o que poderá aumentar a tensão com outros países que já se veem obrigados a retaliar.
Em todo o caso, embora se discorde do que se passa na África do Sul, ainda assim não se pode menosprezar a necessidades que os estados têm de puder criar condições nos seus próprios territórios para que os seus cidadãos consigam ter acesso a trabalho, alimentação, saúde e outros direitos primários. Hoje, no mundo, vai-se tornando uma tendência apontar as culpas a quem provenha de outras latitudes.
É assim que tem agido uma determinada extrema-direita na Europa, algumas com fortes ramificações em África, como vamos observando, infelizmente









