Há imagens que, de tanto se repetirem, correm o ris co de deixar de nos incomodar. Uma criança aproxima-se de um automóvel parado. Estende a mão. Talvez peça uma moeda, comida ou simplesmente diga, com os olhos, aquilo que ainda não sabe explicar por palavras. O sinal abre, os carros avançam e a vida continua. Mas a vida daquela criança ficou ali.
A mendicidade infantil em Angola não pode transformar-se numa fotografia habitual das nossas cidades. Quando nos habituamos a ver uma criança pedir, começa mos, sem perceber, a aceitar aqui lo que nunca deveria ser normal. E os números obrigam-nos a olhar. Dados recentes do Perfil da Criança em Angola mostram que uma em cada três crianças está fora do sistema de ensino.
O UNICEF indica igualmente que 40% das crianças menores de cinco anos sofrem de desnutrição crónica. Há melhorias em vários indicadores, mas continuam a existir profundas desigualdades no acesso à educação, saúde e outros serviços essenciais. Por detrás da mão estendida exis te, quase sempre, uma história maior: pobreza, desemprego familiar, abandono, desestruturação da família, violência, migração interna ou exploração por adultos. E existe uma realidade particularmente inquietante.
O próprio Instituto Nacional da Criança tem identificado situações de instrumentalização de menores para a mendicidade, incluindo crianças colocadas nas ruas por adultos que permanecem à distância. Simultaneamente, existem iniciativas como o programa “Vamos sair da rua”, em Luanda, destinadas ao acolhimento e reintegração dessas crianças. Significa isto que Angola nada tem feito? Não.
Por: PEDRO NOGUEIRA SIMÕES





