Em cada derrota das selecções jovens, abre-se imediatamente um tribunal popular: culpam-se treinadores, dirigentes, árbitros, estágios mal-organizados e até o azar. Mas poucas vezes se discute a raiz do problema. Poucas vezes se olha para a base, e a verdade é simples, quase cruel: nenhuma selecção nacional consegue ser forte se os seus clubes forem fracos na formação.
O recente desaire da selecção nacional sub-17 no CAN de Marrocos voltou a expor uma ferida antiga do nosso futebol. Uma ferida que não nasceu ontem e que dificilmente será curada apenas com discursos emocionados ou mudanças de treinadores. Porque o verdadeiro problema começa muito antes das convocatórias, dos estágios e das competições internacionais.
O problema começa nos bairros, nos campos de terra batida, nas escolas e sobretudo nos clubes que deveriam ser fábricas de talentos e não apenas instituições preocupadas com resultados imediatos. Existe em Angola uma ideia errada, repetida tantas vezes que muita gente já a toma como verdade absoluta: a de que a Federação Angolana de Futebol deve ser a principal responsável pela formação dos jovens jogadores.
Não é. Nunca foi em nenhum país sério do futebol mundial. A federação organiza, orienta, supervisiona, define metas e cria mecanismos de massificação. Mas quem forma jogadores são os clubes, são eles que acompanham o crescimento técnico, táctico, físico e mental dos atletas, trabalham diariamente com os jovens, descobrem talentos, lapidam diamantes e transformam miúdos sonhadores em futebolistas preparados para alta competição.
Quando olhamos para as grandes potências africanas percebemos rapidamente essa diferença. O Senegal, campeão africano, investiu fortemente em academias e centros de formação. Marrocos revolucionou o futebol de formação com estruturas modernas e políticas sérias. A África do Sul continua a colher frutos de um trabalho profundo nos clubes e escolas. Até países com menos recursos financeiros do que Angola conseguiram criar identidades competitivas porque entenderam que o sucesso começa na formação. Angola, infelizmente, parece viver num ciclo de improvisação.
Há talento natural de sobra, o menino angolano nasce apaixonado pela bola. Nos bairros de Benguela, Luanda, Huíla, Huambo ou Cabinda existem jovens com habilidades extraordinárias. O problema é que o talento sozinho já não chega no futebol moderno, hoje o futebol exige metodologia, acompanhamento, alimentação adequada, preparação física, psicologia desportiva e muitos jogos competitivos desde cedo.
E é precisamente aqui que entra também o papel do Estado. O Ministério da Juventude e Desportos não pode limitar-se a organizar competições ocasionais ou inaugurar campos sem continuidade de projectos. O desporto precisa de políticas estruturadas, sustentáveis e permanentes. As escolas deviam estar ligadas aos clubes, os campeonatos escolares deviam sair dos papéis e ser fortes, os municípios deviam possuir centros de iniciação desportiva activos durante todo o ano.
O futebol de formação não pode depender apenas da boa vontade de alguns dirigentes apaixonados. Curiosamente, Angola já mostrou que é capaz. Em 2001 conquistámos o Campeonato Africano das Nações sub 20 na Etiópia. Um feito histórico que ainda hoje provoca orgulho nos angolanos. Mas olhando friamente para a nossa realidade, muita gente pergunta: como foi possível? Talvez tenha sido uma geração especial ou com idades adulteradas, talvez uma conjugação rara de talento e circunstâncias.
Porque depois daquela conquista histórica, o país nunca conseguiu criar continuidade, não transformamos aquele sucesso numa cultura de formação sólida, não aproveitamos o impulso da conquista para construir bases mais fortes. Passaram-se mais de duas décadas e continuamos presos às mesmas dificuldades. Participamos regularmente nas provas da COSAFA, é verdade.
Competimos, ganhamos experiência e, por vezes, até mostramos qualidade, mas sejamos honestos: isso não basta. A COSAFA é importante, mas não pode ser o nosso horizonte máximo de ambição. Angola precisa de sonhar mais alto, de preparar equipas capazes de competir com as melhores academias do continente. Os manuais do futebol dizem que nunca é tarde para corrigir o que está errado. E eu acredito nisso.
Ainda vamos a tempo de mudar o rumo, mas para isso é necessário coragem para admitir falhas e humildade para aprender com os outros. O orgulho excessivo nunca construiu equipas campeãs. A FAF pode criar excelentes condições logísticas, contratar treinadores competentes, organizar estágios, melhorar as competições, mas existe uma verdade incontornável: se os nossos putos não forem realmente bons, nenhum treinador fará milagres. Nenhuma táctica esconderá as suas limitações técnicas graves e nenhum discurso motivacional substituirá anos de formação deficiente.
Por isso, mais importante do que procurar culpados imediatos para a eliminação dos sub-17, é necessário arregaçar as mangas e começar um trabalho sério. É preciso copiar aquilo que os outros países fazem bem, sem vergonha e nem complexos.
O futebol evolui com a aprendizagem e organização. Os clubes angolanos precisam voltar a olhar para a formação não como uma despesa, mas como um verdadeiro investimento. Precisam de treinadores especializados nas camadas jovens, de campos adequados, de campeonatos regulares, competitivos e de dirigentes que compreendam que o futuro do futebol não se constrói apenas contratando jogadores estrangeiros para resolver problemas imediatos.
A grande força de uma selecção nacional nasce muito antes dos aplausos do estádio, nasce nos treinos discretos dos escalões de formação, nos sacrifícios dos jovens atletas, na paciência dos formadores, na visão dos clubes e das instituições.
Por: Luís Caetano









