Há uma doença silenciosa que percorre certos espaços culturais angolanos: a glorificação da superficialidade enquanto se crucifica qualquer tentativa de profundidade. Não é a pobreza material que mais preocupa, mas a pobreza estética, crítica e intelectual que lentamente transforma o pensamento colectivo nu ma vitrina de repetições vazias.
Vivemos, muitas vezes, entre mártires da mediocridade, in divíduos que defendem o banal com fervor quase religioso e atacam aquilo que exige reflexão, sensibilidade ou ruptura. Em alguns círculos, pensar tornou-se arrogância. Ler demais virou exibicionismo. Escrever com densidade passou a ser confundido com vaidade.
O proble ma não está apenas na incapacidade de compreender determi nadas manifestações artísticas, mas no orgulho em rejeitá-las.
A ignorância, antes motivo de constrangimento, hoje aparece mascarada de “autenticidade popular”. E assim, o mediano ganha aplausos enquanto o excelente desperta desconfiança. No discurso estético contemporâneo de certos angolanos, a arte deixou de ser, para muitos, um espaço de inquietação humana para tornar-se apenas entretenimento imediato.
A música é frequentemente medida pelo barulho e não pela mensagem; a literatura pelo alcance e não pela profundidade; a aparência pela ostentação e não pela identidade cultural ou simbólica. A lógica do “viral” substituiu o valor do conteúdo. Importa mais ser vis to do que ser significativo.
O artista que questiona é chamado de complicado. O escritor que exige interpretação é visto como alguém que quer parecer inteligente. O poeta que não escreve frases prontas para redes sociais é tratado como ultrapassado.
Há uma tendência perigosa de reduzir toda produção estética ao consumo rápido, simples e descartável. E nisso nasce um anti-intelectualismo subtil, mas agressivo, uma espécie de revolta contra tudo aquilo que obriga o indivíduo a sair da própria zona de conforto mental. Essa mediocridade não é apenas artística; é também social e psicológica. Muitos preferem repetir fórmulas aceites colectivamente a arriscar uma visão própria.
Criar diferente exige coragem, porque sociedades acostuma das à repetição costumam punir a originalidade. Por isso, alguns tornam-se mártires. Sacrificam a própria autenticidade para serem aceites pelo coro da normalidade. Passam a defender padrões estéticos pobres não porque os considerem verdadeiramente bons, mas porque temem o isolamento que acompanha o pensamento independente. Enquanto isso, obras profundas são ridicularizadas antes mesmo de serem compreendidas.
A crítica séria é confundida com negatividade. O debate intelectual é substituído por ataques pessoais, sarcasmos e frases prontas. Poucos querem discutir ideias; muitos apenas desejam vencer discussões. E nessa atmosfera, a cultura perde sua função trans formadora para tornar-se mero espectáculo de aprovação pública.
Contudo, toda sociedade que mata simbolicamente os seus pensadores, escritores, artistas e questionadores condena-se ao empobrecimento espiritual. Uma nação não evolui apenas com estradas, edifícios ou tecnologia; evolui também pela qualidade do seu pensamento estético, filosófico e cultural. Quando o excelente incomoda e o superficial conforta, há algo profundamente errado no modo como se constrói o imaginário colectivo.
Ainda assim, resistir continua necessário. Produzir arte com verdade, escrever com profundi dade e pensar criticamente tornou-se quase um acto de rebel dia. Talvez seja justamente aí que reside a missão dos que recusam ajoelhar-se diante da mediocridade: lembrar que a estética não serve apenas para decorar a realidade, mas também para questioná-la, feri-la e reconstruí-la.
Por: REIS ADRIANO SIMÃO









