Separados por escassos dois ou três metros cada, ontem, pude ver, em um dos troços da via expressa, alguns camiões estacionados com mercadorias diversas.
Em cada um deles havia um dístico escrito, em letras garrafais: ‘Estamos contigo, Benguela’. Embora estivessem estacionados defronte a uma empresa de capitais chineses, não sei se são os únicos ou se se trata apenas de parte de um apoio aos sinistrados por parte de mais alguns empresários para se acudir às vítimas do desastre que provocou dezenas de mortes e deixou ao relento milhares de famílias.
À primeira vista, com base nas quantidades, as imagens nos remetem logo ao agradecimento aos benfeitores, principalmente numa fase em que muitos se queixam de dificuldades económicas e financeiras. Mas, ainda assim, isso não impede de estender a mão a quem verdadeiramente precisa, depois de ter perdido quase tudo o que construiu ao longo de toda uma vida.
Mas, rapidamente, o sentimento de conforto e reconhecimento de muitos, num grupo em que me incluo, acaba por ser refreado por conta das constantes denúncias de que alguns cidadãos se estejam a aproveitar daquilo que era suposto ser para quem sofre de facto neste momento.
Nos últimos dias, surgiram relatos e imagens de denúncias de alguns indivíduos que têm supostamente usado para benefício próprio os bens que chegam das próprias doações. Uma das denúncias, que acabou por ‘viralizar’ nas redes sociais, mostrava algumas caixas de peixe que já tinham sido surripiadas, mas que acabaram recuperadas.
Foram, posteriormente, devolvidas a uma das cozinhas, onde há alguns dias, ao que tudo indicava, os cidadãos aí servidos se queixavam da ausência deste bem para as refeições.
Enquanto um número considerável de compatriotas, entre adultos e crianças, busca por condições mínimas para que se possam reerguer e continuar a caminhada, há do outro lado aqueles que não se compadecem, razão pela qual estão sempre preparados para colocar a mão naquilo que nem sequer lhes pertence. O certo é que os angolanos, de Cabinda ao Cunene, do Mar ao Leste, atenderam ao chamado.
Foram tocados pela tragédia, cujas imagens são de arrepiar. E cada um, com aquilo que pode, vai fazendo a sua doação para que os sinistrados tenham o mínimo para comer, beber, alguns produtos de higiene, escolares e outros meios emergenciais. Infelizmente, ainda existem muitos cidadãos no país que não se compadecem com o sofrimento dos demais, nem mesmo naqueles momentos mais críticos.
A busca pelo lucro fácil ainda campeia no coração de muitos, por esta razão, entidades do Estado e outras da sociedade civil envolvidas nas acções de controlo das actividades a favor dos sinistrados devem dobrar a vigilância.
Por outro lado, é imperioso que se denunciem aqueles prevaricadores, por forma a se desincentivar outros que possam ser influenciados de algum modo. As ajudas existem, algumas estão a caminho, mas o mais importante é que cheguem aos verdadeiros destinatários.









