Março chega sempre envolto em flores, discursos e homenagens à mulher. Multiplicam-se mensagens de exaltação, promessas de igualdade e palavras bonitas sobre o papel feminino na sociedade. No entanto, passado o mês, muitas dessas palavras evaporam como perfume ao vento. Fica a pergunta que incomoda e desafia consciências.
Quem é verdadeiramente a mulher que a sociedade reconhece? A Eva ambiciosa que quis ser como Deus, a serpente astuciosa que seduz e engana, ou a mulher virtuosa que a Bíblia descreve com honra e dignidade. A história humana começa com uma mulher chamada Eva. Uma mulher curiosa, questionadora e também ambiciosa. A narrativa bíblica revela uma figura que desejou conhecer mais, ultrapassar limites e alcançar aquilo que lhe parecia grandioso. Muitos séculos depois, essa imagem continua a ser usada para julgar e rotular as mulheres.
Eva tornou-se, para alguns, o símbolo da fraqueza feminina. Contudo, poucos se detêm para reconhecer que também ali nasceu a capa cidade humana de pensar, escolher e assumir consequências. Entre Eva e a mulher contemporânea, construiu-se um imaginário cheio de contradições. Há quem veja na mulher a origem dos problemas e das tentações. Outros, pelo contrário, reconhecem nela a fonte de vida, de sensibilidade e de equilíbrio social.
A mulher carrega sobre os ombros séculos de interpretações que ora a condenam, ora a exaltam. Essa ambiguidade continua presente na forma como a sociedade olha para o feminino. Entre o elogio e o julgamento, a mulher caminha numa corda frágil. Surge então a figura da serpente, símbolo de astúcia e sedução. A serpente encanta, envolve, aproxima-se com suavidade e com um certo rebolar que hipnotiza. A sua força está na capacidade de per suadir, de manipular e de conduzir o outro a decisões aparentemente inocentes. Na metáfora
social, muitas vezes a mulher é in justamente associada a essa figura. Diz-se que seduz, que manipula, que usa a inteligência para do minar. A serpente torna-se, assim, um rótulo cómodo para quem prefere não compreender a complexidade feminina.
Entretanto, a serpente não vive apenas nas metáforas que apontam para a mulher. Ela também habita nas estruturas sociais que exploram, manipulam e reduzem o valor feminino. É a serpente que se esconde nas palavras que diminuem, nos gestos que silenciam e nas oportunidades nega das. É a serpente que transforma elogios em armadilhas e admiração em objectificação. Muitas mulheres crescem rodeadas por esse ambiente onde o respeito é substituído por conveniências. E onde a dignidade feminina é frequente mente negociada. Num extremo está Eva, no outro, a serpente.
No entanto, a Bíblia apre senta um terceiro caminho. O caminho da mulher virtuosa. Aquela que constrói, cuida, trabalha e honra a sua casa e a sua comunidade. A mulher virtuosa não é definida apenas pela beleza ou pela sedução. É reconhecida pela sabedoria, pela força de carácter e pela capacidade de servir sem perder a sua dignidade. Ela é descrita como alguém que abre a boca com sabedoria e cuja língua ensina com bondade.
Por: YARA SIMÃO







