Mestre Dikwanza era um homem sem pá tria e sem papéis. Vindo da República Democrática do Congo, cruzou a fronteira com a esperança de quem nada tem, mas viveu em Luanda como uma sombra. O seu mapa era o medo: escondia se nos becos da Mabor, nas zonas industriais da Petrangol e nos labirintos do bairro da Sonef.
Fugia das rusgas e do olhar das autoridades, carregando apenas as suas ferramentas e a sua astúcia. Foi no Bairro Palanca, reduto de tantos como ele, que Dikwanza encontrou o seu porto de abrigo por mais tempo. Ali, ele não era apenas um estrangeiro ilegal; era o homem dos mil ofícios.
Dikwanza apresentava-se como um génio da técnica, fazia de tudo um pouco, mas não entendia de nada. Se um carro não arrancasse, ele era mecânico. Se a chapa estivesse amassada, era batechapa.
Se a casa estivesse escura, tornava-se eletricista. Dikwanza passava-se ainda por pintor e serralheiro, dependendo da necessidade de quem batia à sua porta velha, localizada no anexo do fundo do quintal do vizinho Kiazamby, que já estava farto dele devido às fintas que dava na hora de pagar a renda.
Sempre que chegava o mês de pagar a casa onde vivia, Dikwanza apresentava sempre uma lista infinita de necessidades. Inventava doença, mentia estar sem dinheiro porque os biscates não estavam a ter clientelas, quando, na verdade, todos o viam de um lado para o outro, cheio de ferramentas e mochilas nas costas, fazendo novas vítimas com as aldrabices, mas nada entendia, pois o seu talento era uma ilusão perigosa. É que a falta de rigor, em cada trabalho, deixava um erro escondi do.
Os conflitos eram constantes porque as peças sobravam, os fios entravam em curto-circuito e a tinta descascava em dias. Nesta correria de aldrabices, a sua vida era um ciclo de fugas. Clien tes furiosos cercavam a sua casa dia e noite à caça do homem pelos estragos que causava.
Nos dias em que era encontrado, Dikwanza foi espancado inúmeras vezes e viveu sob a sombra constante de ame aças de morte por conta das suas burlas técnicas.
Entre as vítimas, o destino de Di kwanza cruzou-se com a bon dade do Tio Canguinha, um homem humilde que passava os dias na praça da Tigelinha, na Rua Di reita dos 4 Embondeiros, curva do sobre uma máquina de costu ra, remendando roupas por meros kwanzas para sustentar a exten sa, mas honrada família.
Querendo melhorar a situação da família, Tio Canguinha confiou em Dikwanza para erguer as paredes da sua casa. Foi o erro fatal. Dikwanza, com a sua habitual negligência, alinhou mal a estrutura e negligenciou os alicerces.
No final do dia, Dikwanza deu a obra por terminada, recebendo o seu pagamento e partindo em busca de outras vítimas sem aviso; o peso da alvenaria mal estruturada excedeu.
As paredes colapsaram sobre o interior da casa. A família do Tio Canguinha, que descansava no interior, foi soterrada. Não houve sobreviventes.
Enquanto o Tio Canguinha pedalava a sua máquina na praça, ganhando o pão com o suor honesto, a irresponsabilidade do mestre roubava-lhe tudo o que ele amava. Quando o velho alfaiate regressou a casa, não encontrou paredes nem abraços, apenas os escombros de uma vida destruída pela incompetência de um homem que sabia fazer tudo, mas tudo de forma deplorável.
A dor da perda o consumia, e cada canto da casa agora vazia ecoava as lembranças de momentos felizes. Com o coração pesado, Tio Canguinha decidiu que não permitiria que a tragédia o definisse; ele buscaria justiça e, acima de tudo, a força para recomeçar, tudo por conta de Dikwanza, que nada sabia, mas tudo fazia.






