Como dizia Fernando Pessoa (1888–1935), “somos cadáveres adiados que pro criam”. A frase lembra-nos que a vida é, em certo sentido, apenas um adiamento da morte. Contudo, se essa condição é inevitável, que ao menos não nos antecipemos a ela antes do tempo, pois há quem já apodreça em vida. Os estoicos lembravam que somos soberanos apenas daquilo que depende de nós.
Não podemos alterar a morte, mas o nosso carácter e o cultivo das virtudes permanecem sob a nossa responsabilidade. Entre duas ausências — o tempo em que ainda não existíamos e o momento em que deixaremos de existir — de senrolam-se duas formas de de terioração: a física, que acompanha o corpo ao longo da vida, e a ética, que corrói a consciência e a humanidade.
Não é difícil reconhecer os sinais dessa putrefação ética. Quando atitudes desumanas deixam de causar estranheza, ou passam a ser vistas como inevitáveis, surgem os mortos-vivos morais: pessoas que respiram,
trabalham e circulam, mas per deram a capacidade de reconhecer a humanidade do outro. Tornaram-se, por assim dizer, cadáveres-cadáveres: cadáveres no plano biológico — como todos nós o somos em potência —, mas também cadáveres no plano ético e espiritual, porque deixaram morrer dentro de si a própria humanidade.
Em contraste, existem os cadáveres humanos: seres que, embora também sejam cadáveres em potência, permanecem huma nos em acto, preservando consciência, dignidade e empatia.
Talvez Eduardo Marinho (1949– ) tenha razão ao afirmar que ainda não nos tornámos plenamente humanos, pois violamos a consciência por conveniência, enquanto o ter se torna mais importante que o ser. Talvez, quando realmente formos humanos, muitas atitudes hoje indiferentes se revelarão escândalos morais.
Essa reflexão encontra eco em Hannah Arendt (1906–1975) e na sua banalidade do mal: muitas atrocidades são cometidas por pessoas comuns que deixaram de pensar moralmente. Como Sócrates (470–399 a.C.) já intuía: o mau só é mau porque é ignorante.
Como advertia Immanuel Kant (1724–1804), devemos agir tratando os outros como fins e nunca apenas como meios. Quando es se princípio é abandonado, a crueldade encontra espaço e proliferam os cadáveres éticos em circulação.
José Saramago (1922–2010) afirmava que o homem é o único animal verdadeiramente cruel: o leão caça por necessidade, o homem muitas vezes por capricho ou egoísmo. Nesse cenário, observa-se a ascensão do Eros — amor do desejo, que busca a própria satisfação — em detrimento do Ágape — amor que se doa ao outro, que se alegra com a alegria do próximo.
Como lembrava Madre Teresa de Calcutá (1910 1997), é fácil amar quem está distante; difícil mesmo é amar quem está perto. É nesse convívio quotidiano que a nossa humanidade é realmente testada.
A vida pode parecer absurda, mas a dignidade humana revela se na resistência ao absurdo. Foi essa a reflexão de Albert Camus (1913–1960) no mito de Sísifo: mesmo diante de um destino sem sentido, podemos escolher a consciência, a lucidez e a dignidade. Viver, no fundo, é impedir que o coração apodreça antes do corpo.
Por: CARLOS PIMENTEL LOPES








