Depois da escola, era no muro do Suamino que ficávamos horas e horas a instigar-nos uns aos outros. Estigávamo-nos durante horas, muitas vezes até à madrugada. Mas éramos só miúdos. Daí que os pais, quando olhavam para o relógio e já eram 20 horas, começavam a estranhar o facto de não estarmos em casa. Aguardavam mais um bocadito, espreitavam pela janela para ver se estávamos reunidos ali no muro.
Mas nós continu ávamos com as estigas que iam da Maria Nguimbola, Capiópió, Manucho Djompila, Manguito Choné, Bela da Cueca Furada, Nelo Barata e pai do Tinocas, que andava com sapato fura do. Ainda tinha o Pailoy sujo da pele, Ti-sabalo boiado e Mizinho côco. O Gomussco era quem mais estigava. Estigava, estigava, até ao ponto de o Pailoy sair a cor rer, a chorar, em busca de reforço do seu irmão, Meikiby.
O Meikiby vinha todo nervoso. Naquela altura, já era mais velho do que nós. Nós, pirralhos que éramos, com os nossos 15/16 anos, víamos o Meikiby chegar para nos amedrontar: — Quem fez o Pailoy chorar? Quem fez o miúdo chorar? Mostra! Falem, seus pirralhos duma figa, seus sacanas! Por isso é que estão aqui, em vez de estarem a estudar. A essa hora devia dar-vos umas boas mbendas, seus pirralhos!
E nós, ali, criancinhas, a tremer de medo, com receio de que o Meikiby tomasse uma atitude violenta por causa do Pailoy, que não aguentava as estigas e acabava sempre a chorar. Mas o Pailoy não era o único. O Manucho Zé Loi também, mui tas vezes, atirava pedras ao Gomussco e aos outros que estigavam a Mariazinha, sua irmã. Segundo o Gomussco, que era o seu namorado, ela era tão fininha que, ao andar, parecia estar a voar.
Por: DOMINGOS BENTO





