Na maior parte das vezes, uma viagem faz sempre bem. Ainda que seja apenas uma viagem no tempo como a que me proponho fazer hoje, falando dos blocos “Bês” e das “Cês”, conglomerados habitacionais do Bairro Popular de São Pau lo, hoje Nelito Soares.
É uma viagem no tempo até ao coração de uma Luanda que já não volta, mas que deixou raízes profundas na identidade daquele pedaço de chão desta nossa Luanda, nascida Loanda.
Quem caminha hoje pelas ruas asfalta das daquela zona da capital do país não ouve, logo à primeira, o eco das vozes que outrora ecoaram naquele chão desenhado entre os edifícios que todos conheciam simplesmente como as áreas B e C.
Nos territórios urbanos das “Bês” e das “Cês”, um lugar que é mapa de fortes memórias afectivas, a vida acontecia no quintal e na rua. Isto faz com que o passado deste reduto esteja irremediavelmente ligado à poeira vermelha, levantada nos célebres jogos do Club os Falcões, criação dos jovens estudantes das “Bês” (1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7), no Campo São Domingos, que faziam parar a comunidade ao final da tarde.
Lembrar esse tempo é, também, recordar a Cacimba do Bairro Indígena – esta era a designação informal da “malta” –, onde nós apreendemos a dar as primeiras “fimbas” e a nadar, sob o olhar atento da sereia, Deusa protectora daquelas águas que tanto respeitávamos. É lá que, posteriormente, foi erguido o majestoso Estádio da Cidade la, um gigante de betão nascido sob o olhar silencioso da divindade.
À nossa volta erguia-se a rica, vasta e frondosa floresta de eucaliptos que moldava a paisagem circundante, cujas sombras e aromas penetravam os bairros, sendo um pulmão da cidade. A solidariedade corria solta nas veias dos vizinhos que partilhavam água preciosa e encontravam no Hospital de São Paulo (Américo Boavida) o grande pilar de saúde e acolhimento.
A espiritualidade e o refúgio comunitário concentravam-se nos cuidados espaços verdes, em frente à Igreja de Nossa Senhora de Fátima, também chama da de São Domingos, por associação popular devido à proximidade com o Cinema homónimo que estava ali paredes-meias. Este era um ponto de encontro geracional mui to acarinhado.
Aqui, aliás, vários jovens,cresceram sob o olhar atento e a orientação de Padres Capuchinhos, entre os quais se destacaram, pela sua profunda dedicação e carisma, os inesquecíveis Padres Apolinário e Agostinho Di Bassano. A alma social e cultural da zona vi brava intensamente aos fins-de semana, nos românticos bailes do Centro Social de São Paulo; embalavam os corações da juventude ao som do Semba e do “rhythm andblues”.
Aos Sábados e aos domingos, a rotina cruzava-se obrigatoriamente nas tertúlias do Cinema São Domingos. Era lá que os estudantes e pessoas de outras origens sociais se reuniam em massa, numa atmosfera de harmonia, unidade, irmandade e respeito. Filmes lendários como “Zorro” ou musicais como “Mulheres e recrutas” marcaram profundamente uma geração. Era um delírio apreciar a sublime interpretação do actor italiano Gianni Morandi, que contracenava com Laura Efrikian, no papel de Carla Tedesco.
Por: NAZARÉ VAN-DÚNEM










