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Luanda – Malanje: uma viagem à maneira do prolongado

Jornal Opais por Jornal Opais
20 de Setembro, 2024
Em Opinião

É bom quando somos abonados com dias de repouso, todos festejam, todos gritam, todos saltam, todos esperneiam os pés e cruzam os braços, mas a produção? Meus neurónios não obedecem à terra por onde pisam os pés. A produção é feita no dia anterior. Uma resposta de mim para mim.

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Tirei os pés de casa, fui caminhando para o parque interprovincial “Ti Show”, tenho Malanje como lugar perfeito para aproveitar este prolongado.

Chego no parque, encontro um ambiente assustador, pessoas correndo de um lado para outro, cargas voando daqui e acolá. gritarias. o preço da viagem subiu, os taxistas sabem muito bem aproveitarse da situação. Tempos depois, todos carros cheios, prontos a sair, fiquei perdido, nunca tinha visto aquilo, lotação de carros em segundos.

Todos querem sair de Luanda, como se de Europa se tratasse. Depois de um tempo, consegui um transporte. Dentro do autocarro já se encontrava o prolongado, uns mais adiantado e outros mais recuados, como eu, que só tinha Malanje como a única missão e palavra de ordem. Tudo estava uma confusão.

O cheiro do álcool banhava o aroma dentro do autocarro, o choro das crianças, feito dias de guerra, os vozeados dos passageiros, as gritarias dos vendedores dentro do autocarro antes da sua partida, as trochas no corredor do autocarro, era tudo um misturado de raiva, para alguns, e alívio para outros.

“motorista, olha a hora, temos de ir, Malanje não é zango, embora este seja uma espécie de província”, gritou um senhor ao meu lado, abafando-me com o cheiro horrível do álcool. Era o efeito do pássaro de 1952 que voava sobre o seu estômago, tendo ninhos na boca do cérebro.

“Mas você é surdo?”, gritou o seu compadre ao lado. Percebi que a viagem seria mais longa e aborrecida que o desejado.

Nove horas e trinta minutos, surgiram as primeiras canções do motor. As rodas foram batucando o asfalto que já apresentava o seu desespero pelo seu péssimo estado de velhice.

Fomos caminhando à maneira do asfalto, hora a esquerda hora a direita, outra hora no centro. “bukutu, bukutu, bukutu”, gritavam os pneus insuportáveis pelas feridas e sicatrizes do asfalto.

A velocidade devia obediência ao estado distratado do asfalto. Fomos caminhando, tivemos a primeira paragem, depois seguimos.

Dentro a guerra continuava, pela hora, os pratos começaram a tocar, acompanhando a melodia do choro das crianças e os gritos dos talheres.

“motorista, aumenta a velocidade, não é assim que se viaja, estás muito lento”, gritou um jovem, enquanto lançava o líquido do pássaro à garganta. “mano, não estressa o motorista, se está lento, deixa a cerveja e pega o volante”, resmungou uma senhora ao lado.

Já em Ndalatando, o ar fervia-me a barriga, causava-me um inconformismo, uma dor na ponta do umbigo. Tive de desfazer-me do ar e mandar para fora, tempos depois mal cheiro, não era grave, mas ouvia-se murmúrios. Larguei-me a rir, estive leve, depois fingi uma reclamação para limpar o meu riso na visão daquelas pessoas. Minutos depois, voltei a deixar sair outros ares que ficaram no túnel da barriga.

Agravou-se as reclamações, deitei mais sorrisos, depois ajudei nas reclamações, tudo um fingimento igual ao país onde pisa os meus pés. Senti-me relaxado, tudo aqui faz sentido, o país também anda assim.

O dia morria, enquanto as árvores entoavam as notas de boasvindas. Sentir um cheiro longe de Luanda, longe da confusão dos táxis e de todas outras guerras.

Malanje não é distante, nunca foi, as oito horas de caminhada são justificativas da estrada e do aborrecimento do motorista, causado pelos gritos dos passageiros que decidiram viajar dentro da viagem, um grande crime de viagem. Não se pode viajar dentro da viagem, ainda mais uma viagem de vôo de pássaro de 1952.

 

Por: KHILSON KHALUNGA

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