Há poucos anos, o comum era os adversários apontarem o MPLA como sendo um suposto exemplo de falta de democracia interna, porque acreditavam estes que, dificilmente, existiriam múltiplas candidaturas no seio da própria organização. Para muitos, o facto de não terem ocorrido nos períodos mais recentes congressos em que tenham havido múltiplas candidaturas seria já uma espécie de sentença de que o futuro pudesse ser menos risonho.
Outros, mais pessimistas, vinham na hipótese de um eventual conclave em que intervenham mais do que um candidato possa ser o início de um ciclo de desintegração, que levaria ao desmoronamento da máquina de uma das maiores organizações políticas do continente africano. Quase 10 anos depois da saída em cena de José Eduardo dos Santos da liderança da organização e nove de gestão do Presidente João Lourenço, era expectante que o congresso que viesse a ocorrer já na ponta final do seu mandato na liderança do país – uma vez que o MPLA é o partido no poder – fosse centralizar as atenções a nível interno e externo.
E os últimos anos de gestão do país, marcados por altos e baixos, sobretudo pela necessidade de se depurar certos males, como a corrupção que se havia alastrado de forma significante, afastando cenário político e empresarial certos rostos, acabaria por criar ainda mais expectativas em torno do futuro da organização e dos seus objectivos para os anos subsequentes.
Para já é ponto assente que o actual líder da organização, o Presidente João Lourenço, pretende manter-se à frente do leme da organização, auspiciando, provavelmente, mantê-la no topo há um ano das próximas eleições gerais de 2027. Antes mesmo de se ter manifestado, era sabido também que havia um leque de aspirantes, entre os quais o general Higino Carneiro, que ontem mesmo apresentou oficialmente a sua candidatura à comissão encarregue de liderar este processo, assim como os militantes José Carlos de Almeida e António Venâncio que ainda não deram quaisquer passos.
Pessoalmente, não acredito que os dois últimos façam alguma amolgadela nos dois primeiros concorrentes que apresentaram as suas candidaturas, embora se saiba que o último, no caso o antigo ministro das Obras Públicas e governador das províncias do Cuanza-Sul, Cuando-Cubango e Luanda, aguardará por um veredicto da comissão chefiada por Job Castelo Capapinha. A seis meses do congresso, como se diz muita água ainda poderá correr debaixo da ponte.
Não se descura, em todo o caso desistências, nem tão pouco a possibilidade de alguns, mesmo sem grande força de mobilização, tentarem endossar o voto àqueles que são inevitavelmente os principais rostos à liderança do MPLA.
Enquanto as atenções para muitos continuam concentradas a nível do topo, a verdade é que no sector intermédio e na base , o partido dos camaradas vai, igualmente fazendo uma outra ‘revolução’ com múltiplas candidaturas na corrida aos cargos de secretários provinciais, municiais e, incluindo, nos comités de acção.
E depois de Dezembro, hipoteticamente, poucos terão argumentos para apontar ao MPLA de não ter aprimorado os mecanismos internos e a democratização das suas estruturas, porque os passos em que curso acabam por ser maiores do que os de muitos que se apontavam como percursores da democracia interna.








