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Gramática e currículo oculto: o que realmente se ensina na sala de aula? (Parte 2)

Jornal OPaís por Jornal OPaís
10 de Setembro, 2025
Em Opinião

Para compreender melhor essa dinâmica, consideremos algumas situações comuns no ensino da gramática em Angola: • Correção da oralidade: um aluno diz em sala: “eu mantei com a minha esposa”.

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O professor corrige imediatamente: “o certo é: eu mantive com a minha esposa ”. Embora a correcção seja válida, o modo como ela é feita pode transmitir ao aluno que sua forma de falar é “errada”, reforçando o preconceito linguístico, em vez de explicar que se trata de uma variação morfológica em uso na comunidade.

• Ênfase nas provas: muitos professores concentram-se em ensinar a classificação de orações subordinadas porque isso “sempre sai na prova”. Assim, o que se ensina não é a compreensão funcional da língua, mas a repetição de estruturas que asseguram a aprovação.

O currículo oculto, nesse caso, transmite a mensagem de que o conhecimento gramatical serve apenas para “ser aprovado”, e não para a vida.

Ausência de diálogo com textos reais: em muitas aulas, o ensino da gramática dá-se em frases soltas, sem relação com textos literários, jornalísticos ou do quotidiano dos alunos.

O currículo oculto ensina, assim, que a língua é um código fechado e artificial, distante da realidade comunicativa. Outro aspecto relevante é a formação dos professores. Muitos docentes foram eles próprios formados em uma tradição normativa e reprodutiva, na qual a gramática era vista como um corpo de regras fixas a serem memorizadas.

Ao entrarem em sala de aula, tendem a reproduzir essa mesma lógica, perpetuando o currículo oculto. Sacristán (2000) lembra que os professores são agentes curriculares, e suas escolhas didácticas refletem concepções de língua, de ensino e até de sociedade.

Assim, ao ensinar gramática de forma normativa e punitiva, o professor não apenas transmite conhecimento linguístico, mas também uma visão ideológica da língua como instrumento de exclusão.

Apesar dessas limitações, é possível transformar o ensino da gramática para que o currículo oculto seja ressignificado em favor de uma aprendizagem crítica e significativa. Algumas estratégias incluem:

1. Articulação entre gramática e uso: ensinar conceitos gramaticais a partir de textos reais (provérbios, crônicas, canções, notícias, narrativas orais). Isso permite que o aluno veja a gramática como algo vivo, ligado ao quotidiano.

2. Valorização da variação linguística: explicar aos alunos que existem diferentes variedades da língua, todas legítimas, mas que em certos contextos (como concursos, provas ou documentos oficiais) a norma-padrão é mais adequada. Essa perspectiva, defendida por Bortoni-Ricardo (2005), evita o preconceito linguístico.

3. Gramática reflexiva: em vez de impor regras, propor actividades em que os alunos descubram padrões, reflitam sobre usos e comparem construções linguísticas. Isso aproxima a gramática da análise linguística moderna.

4. Integração de metodologias activas: jogos, debates, dramatizações e produções textuais podem ser usados para ensinar tópicos gramaticais de forma participativa, rompendo com o modelo puramente expositivo.

Quando se ensina gramática, não se ensina apenas língua: ensina-se também uma forma de ver o mundo. Se o currículo oculto reproduz preconceitos e desigualdades, cabe à escola e ao professor transformá-lo em um espaço de cidadania linguística.

Isso significa ajudar os alunos a compreenderem que a língua é plural, dinâmica e diversa, e que o domínio da norma-padrão deve ser uma ferramenta de inclusão, e não de exclusão.

A gramática, nesse sentido, deixa de ser apenas um conjunto de regras para se tornar um instrumento de reflexão crítica sobre a sociedade.

Por: ANDRÉ CURIGIQUILA

Professor

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