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Diversificação económica: onde está o dinheiro para o angolano?

Jornal OPaís por Jornal OPaís
24 de Abril, 2026
Em Opinião

Nas cimeiras internacionais, nos relatórios do FMI e nos discursos oficiais, a palavra é sempre a mesma: diversificação. É o som que promete libertar Angola da dependência do petróleo e construir uma economia resiliente.

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Mas, quando o avião presidencial regressa e as luzes dos auditórios se apagam, a pergunta que fica nas ruas, nas associações empresariais e nas mesas de cozinha é mais simples e mais urgente: onde está, de facto, o dinheiro para o angolano? A diversificação não é um interruptor que se liga com um decreto.

É uma transição estrutural que exige tempo, capital paciente e mudança de mentalidade. Durante décadas, a economia angolana foi organizada em torno de fluxos concentrados: receitas fiscais do sector extractivo, grandes contratos, importação de bens acabados. Virar a página significa reconstruir cadeias de valor, formar mão-de-obra especializada e criar ecossistemas onde o risco seja partilhado e o retorno, previsível.

O capital não flui para slogans. Flui para onde há logística, segurança jurídica e capacidade de execução. E é precisamente aí que as oportunidades reais se escondem. Não nos sectores abstractos dos manuais, mas nas cadeias de valor concretas. Na agroindústria: não apenas plantar, mas transformar, embalar, refrigerar e distribuir. Na indústria ligeira: montagem local de materiais de construção, têxteis, processamento alimentar e reciclagem.

Nos serviços e na economia digital: manutenção técnica, logística urbana, plataformas de comércio local, turismo doméstico e formação profissional. O dinheiro existe. Está fragmentado, muitas vezes informal, e à espera de quem saiba ligar os pontos entre produção, escala e mercado.

O gargalo, reconheça-se, não é a falta de visão. É o acesso. O crédito continua caro e exigente em garantias reais. A burocracia ainda penaliza a agilidade. Os custos logísticos e energéticos comprimem margens. O que funciona na prática? Parcerias. Cooperativas que partilham equipamentos e compras.

PME que se alinham com programas de contratação pública local. Jovens empreendedores que usam ferramentas digitais para contornar barreiras físicas. O papel do Estado não é escolher vencedores, mas nivelar o campo: simplificar licenciamentos, garantir cumprimento contratual, criar linhas de crédito vinculadas à produção e não apenas ao património, e investir em infra- estruturas que reduzam o custo de fazer negócio.

Para o cidadão e para o pequeno empresário, a diversificação não é uma política à espera de descer do governo. É uma estratégia a adoptar agora. Aprender uma competência adjacente a um sector em crescimento. Formar redes de fornecimento. Começar pequeno, mas pensar em cadeia de valor, não em transação isolada. Acompanhar onde o investimento público e privado se materializa, não onde apenas se anuncia.

A literacia financeira, neste contexto, significa saber posicionar-se numa economia que muda de pele. A diversificação só será real quando deixar de ser manchete e passar a ser folha de salário. Quando a unidade de processamento no Cuanza Sul exportar produtos acabados, quando a oficina em Cabinda formar técnicos certificados, quando o hub tecnológico em Luanda integrar jovens nas cadeias globais de serviços.

O capital está em movimento. A questão é se estamos a construir pontes para ele, ou apenas a observá-lo passar. Na próxima sexta-feira, vamos abrir o Orçamento do Estado e ver como as prioridades fiscais podem acelerar — ou travar — este encontro entre macroestratégia e micro- economia. Porque um país que diversifica é um país que cria raízes.

POR: ABRAÃO HUNGULO

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