Depois de longas horas na paragem e já sem esperança, fui toma do por uma grande alegria ao ouvir o jovem “nduta” que se fazia transportar num “azul e branco” gritar: “Desvio do Zango!” O meu destino, finalmente. Já a bordo da viatura, pus-me a ler o jornal que trazia na pasta para enganar a lentidão da via. Logo na primeira página deparo me com a notícia de que “95% dos jovens angolanos já realizaram o sonho da casa própria.” Interessante! — disse para mim mesmo.
E, como não fazia parte da quela estatística, já que carrego “inquilino” como meu sobrenome, fiz questão de me incluir voluntariamente nos 5% restantes. Ainda a digerir a notícia, salta me à vista outra manchete: “Angola ‘zera o game’ com a erradicação da malária”. Mais abaixo, outra: “Sem BI, nem pense em partir: governo aperta regras até depois da vida.
Antes de morrer, confirma se tens BI”. Pensei em ligar para o gajo do meu primo de Caxito para o xingar. Não é que o sacana vive inabilitado, para não dizer ilegal, desde que se conhece como gente e, pelo que noticia o jornal, está expressamente proibido de morrer enquanto não tratar o BI, sob pena de virar mobília da morgue até a família regularizar a documentação.
Talvez seja mais uma daquelas “fake news”, pensei novamente. Continuei a folhear o jornal até ser surpreendido, tal como os outros passageiros, por uma voz aguda vinda do banco de trás. — Xé, moço, estás a me olhar assim através de quê? Era uma moça carnuda, ou vita minada, como preferirem, vestida de minissaia branca de linho, que confrontava o jovem ao lado que olhava fixamente para as suas pernas grossas.
O jovem, sem jeito e gaguejando como quem é apanhado com a boca na botija, disse: — Quem? Eu? Tá amarrado, yeah. — Tá amarrado como?! Se eu te vi, moço — acrescentou a musa, cujo “mataku” grande e pernas torneadas alimentavam os nossos insaciáveis olhos. — Mô cassule, fica mbora descansado. Também, com essa minis saia e pernas grossas, quem é que resistiria? Talvez só mesmo José do Egipto — disse um senhor de meia-idade com uma voz sofrida, típica dos antigos combatentes.
— Concordo com o senhor. Talvez só mesmo José do Egipto, porque “parece” que o nosso José, o da Cidade Alta, não foi assim tão santo — disse eu, entrando na conversa.
Entendendo a piada, o mais velho soltou um leve sorriso e disse: — Mô puto, é bom arranjar já ad vogado. O outro então, aquela vez, teve uma conversa saudável e amena com elementos desconhecidos que hoje anda mais urbano e menos lumpeno.
Todos caíram em fortes gargalhadas, inclusive o madié do volante, claro, menos a moça das pernas grossas, que disse: — Mô senhor, o facto de eu estar vestida de minissaia ou ter pernas grossas não lhe dá o direito de fazer radiografia do meu corpo, muito menos… Antes que a jovem terminasse, o mais velho tomou novamente a palavra.
Nessa altura, eu já estava bem caladinho no meu canto. Ainda um jornalista desses nos fotografa e nos expõe com legenda maldosa na internet. Presumi. — Filha, eu sei que não foi ético o que ele fez, mas coisas boas mesmo são para serem aprecia das. Quantos homens não que rem uma beldade dessas em casa! — disse novamente o mais velho.
— Eh, o que é que a saia não faz na vida de um homem! Esse todo alvoroço mesmo por causa do cor paço da moça alheia. Todos vocês estão a precisar de um período de oração e jejum no monte — disse uma mãe trajada de pano da Mamã Muxima, provavelmente vinda de uma homilia.
— Sinto-me orgulhoso, por ser africano, os meus antepassados todos nasceram aqui — disse cantarolando o jovem “paculado” que se sentava no banco do pendura. E, novamente, todos os passageiros caíram em fortes gargalhadas, seguindo-se um diálogo quase interminável até o “nduta”, naquela voz rouca, sentenciar: — Família, estou a cobrar. Môtropa, “faxavori”, recolhe só os valores da tua fila. São 2.000 Kwanzas.
E assim, entre a caricatura do jornal e anda-pára do carro, só as pernas grossas daquela moça do táxi para nos fazer “sorrir para não chorar e cantar pra não pensar as malambas dessa vida”, como terá musicalizado MCK.
Por: JOAQUIM ADOLFO
*Professor de Língua Portuguesa









