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A vírgula não é vaidade escrita

Jornal OPaís por Jornal OPaís
10 de Julho, 2025
Em Opinião

A vírgula, meus caros, não é apenas um sinal de pontuação. É uma entidade temperamental. Uma diva curvada, pequena, mas cheia de manias de grandeza. Se fosse gente, seria aquela professora aposentada que, mesmo fora da sala de aula, insiste em corrigir a conversa dos outros na fila do banco.

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Discreta? Nunca foi. Modesta? Jamais. A vírgula adora uma interrupção. Gosta de parar no meio da frase, suspirar, olhar para os lados e dizer: “Vamos com calma, minha gente, senão esse texto desmaia de tanto correr.” É a guardiã da pausa dramática, a diretora de ritmo da língua portuguesa, a regente do silêncio necessário entre uma ideia e outra. Mas, infelizmente, é também uma vítima constante de abusos.

Sim, a vírgula vive entre dois extremos perigosíssimos: o da negligência e o da overdose. Há quem a esqueça solenemente, como quem atravessa um deserto sem garrafa d’água.

E há os que a usam em excesso, como perfume barato em dia de festa: pingam vírgula em todo canto achando que estão deixando o texto mais bonito, quando na verdade só estão matando a sintaxe sufocada. Num ofício público, por exemplo, a vírgula vira um ser histérico.

Vem aos pares, aos trios, numa coreografia de confusão. Frases como “Sirvo-me, da presente, para, informar, que…” são verdadeiros atentados linguísticos. A vírgula está ali, mas claramente contra a sua vontade. Já nos bilhetes de amor, ela some.

Evapora como pudor em carnaval. O apaixonado escreve “Não consigo viver sem você meu amor você é tudo pra mim”, e o leitor que se vire para decifrar se isso é uma jura eterna ou um pedido de socorro.

A vírgula, em sua essência, é como aquele amigo sensato que entra na conversa só para pedir calma. Ela não tem vocação para causar — ela causa porque é mal interpretada.

E o mais trágico é que, usada no lugar certo, a vírgula é pura arte. Pura elegância. Uma leve inclinação no texto que muda tudo. Veja: “Não quero, morrer.” “Não, quero morrer.” “Não quero morrer.”

Três vidas, três destinos, uma vírgula. Ela é pequena, mas tem um poder que nem sabe carregar. É uma granada sem pino esquecida numa redação. Aliás, se existe um campo de guerra onde a vírgula é jogada para todos os lados, esse campo é a internet.

Nos grupos de WhatsApp, ela perdeu completamente a função. Virou item decorativo. Ou foi substituída por emojis, que hoje fazem o papel de pontuação emocional.

Porque, claro, quem precisa de vírgula quando se pode usar três carinhas de tédio? A vírgula, coitada, olha tudo isso de longe e suspira. Não pediu para ser celebridade, mas também não merece ser tratada como figurante.

Afinal, não estamos a falar de qualquer sinalzinho. Estamos a falar da vírgula, criatura que organiza enumerações, que esclarece adjuntos, que impede mal-entendidos e, sobretudo, que salva reputações. Sim, reputações.

Porque imagine o estrago social de uma frase como: “Vamos comer crianças!” Quando o correto seria: “Vamos comer, crianças!” A primeira transforma um almoço em filme de terror.

A segunda, em merenda escolar. É essa a linha tênue que a vírgula vigia. Mas ela também tem seus caprichos. Gosta de aparecer em certas frases só para mostrar serviço. “No entanto,”, “portanto,”, “além disso,” — lá está ela, pontuando conectivos com cara de erudição.

É quase como se dissesse: “Viram? Aqui tem texto de gente que leu pelo menos duas crônicas da Lya Luft!” O problema é quando confundem estilo com desespero. Já vi textos que pareciam ter escrito com soluços: “Hoje, estou, muito, feliz, porque, enfim, consegui, terminar, o, relatório.” — Um massacre. Um desfile de vírgulas desgovernadas, como marchas fúnebres de um português sem alma. E a escola, então? O ensino da vírgula é um campo minado.

O aluno aprende que “vírgula não separa sujeito de predicado” como um mandamento sagrado, mas o mundo real está cheio de exceções, ambiguidades e escritores com licença poética. O resultado? Um batalhão de estudantes traumatizados que preferem não usar vírgula nenhuma para não correr riscos.

Jogam a frase direto, sem freio, na descida. Mas a vírgula, generosa, perdoa. Ela continua ali, à disposição, esperando o momento de brilhar — sem exigir destaque, sem gritar, apenas curvando-se com sua modéstia calculada.

No fundo, tudo o que a vírgula quer é respeito. Nem veneração, nem desprezo. Quer o seu lugar de direito. Quer que a tratem como tratam a pontuação nos contratos: com atenção, com precisão, com medo.

Porque, no fim, a vírgula é mais que uma pausa. É a alma do texto. É ela quem regula a respiração das palavras, quem dá ritmo à leitura, quem oferece ao leitor o conforto de entender o que está sendo dito sem ter que parar para adivinhar.

Portanto, da próxima vez que for escrever algo, pense na vírgula como uma companheira leal. Ela não vai pedir nada em troca — só um espacinho no meio da sua frase, para que ninguém precise ler três vezes até entender o que você quis dizer. A vírgula, afinal, é como aquele amigo que não fala muito, mas sabe exatamente quando calar e respirar.

Por: ANDRÉ CURIGIQUILA

  • Professor
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