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A Maria e o quiabo

Jornal Opaispor Jornal Opais
1 de Novembro, 2024
Em Opinião

Em uma zona de Luanda morava Dona Maria, uma dessas mulheres que acorda antes mesmo do galo cantar. Ela vivia no bairro Parapeito Esqueleto, um lugar tão pobre que os únicos meios de transporte pareciam carregar pessoas como gado, em carrinhas abarrotadas.

A paisagem era dominada por grandes baobás, mas o resto era tão seco e denso que o bairro lembrava um verdadeiro faroeste, onde a cor quase não existia. Mas Dona Maria, resiliente como era, não se deixava abater.

Um dia, depois de observar aquele chão árido e as plantas que teimavam em não brotar, decidiu usar um canto do seu quintal para algo especial. “Se é pra ser duro, que seja comigo plantando”, pensou.

E assim, começou a cavar um pedacinho de terra, onde fez sua pequena lavra. Com o tempo, os primeiros quiabos começaram a aparecer, tímidos mas verdes, prontos para serem colhidos. Dona Maria, contente, planeava uma boa fubada com os quiabos.

Pegou um pouco de água salobra, única disponível por ali, e com tristeza regava o canteiro. Ela sabia que essa água não era boa, que provavelmente danificaria suas plantas, mas era o que tinha.

Olhava para as folhas com carinho, quase se desculpando. Cada gota que caía era uma prece. “Aguentem firmes, meus quiabos. Vamos todos sair dessa juntos”, murmurava ela. Para Dona Maria, aqueles quiabos eram muito mais que apenas comida.

Eram a prova de que até no Parapeito Esqueleto, aquele lugar duro, onde a vida parecia árida como o chão rachado, a esperança podia se enraizar. Ela regava as plantas como se cuidasse de uma criança, falando com os brotos e acariciando cada folha nova que aparecia.

O bairro Parapeito Esqueleto tinha sua própria energia. Pobres, sim, mas com vida em cada esquina. As crianças brincavam com latas e paus, inventando brincadeiras entre a poeira.

Os homens se ocupavam consertando bicicletas velhas, e as mulheres, como Dona Maria, faziam da terra seca seus pequenos jardins. Era uma luta diária, mas cada um se virava como podia.

Quando chegou o dia da colheita, Dona Maria não cabia em si de alegria. Colheu cada quiabo com cuidado, suas mãos trêmulas de emoção como quem segura um tesouro raro. Naquela noite, preparou a fubada com os frutos do seu quintal.

E assim, o Parapeito Esqueleto, por um instante, se tingiu de verde, de cheiro e de uma alegria simples. O prato era modesto, mas era dela, da sua teimosia, do seu suor, da sua força.

Dona Maria provou, enfim, que até na terra mais seca e densa, a resiliência é uma semente poderosa. Cada colherada era uma vitória, e os vizinhos, ao verem aquele pequeno banquete, entenderam que no Parapeito Esqueleto, a vida podia sim florescer — bastava alguém com coragem e esperança para plantar.

 

Por: RIBAPTISTA

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