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A inveja é a maior tala lançada nos locais de trabalho

Jornal OPaís por Jornal OPaís
27 de Fevereiro, 2026
Em Opinião

Há um mal silencioso que corrói instituições públicas por dentro e raramente é discutido com frontalidade. Não está nos relatórios financeiros nem nas auditorias administrativas. Não se mede em números, mas sente-se no ambiente. Falo da inveja, esse sentimento corrosivo que se instala entre colegas e compromete a saúde emocional das equipas. Em muitos organismos do Estado, onde os salários pouco diferem entre categorias, ela tornou-se prática disfarçada de crítica. E o mais grave é que se normalizou o que deveria ser combatido. A inveja passou a ser tolerada como se fosse parte da cultura institucional. A Bíblia alerta que a inveja corrói como ferrugem na alma, e a sabedoria popular chama-lhe “tala”, aquela amarra invisível lançada por maldade. A metáfora não é exagero. Há profissionais competentes que veem os seus passos travados não por incapacidade, mas por ressentimento alheio. A inveja não precisa de rituais, basta um coração desajustado. Ela actua nos bastidores, infiltra-se nas conversas paralelas e alimenta narrativas destrutivas. E quando se instala, cria divisões onde deveria haver cooperação. Nenhuma instituição é imune a esse veneno.

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É preocupante constatar que até entre directores e chefes há disputas silenciosas motivadas por comparação. Não se trata apenas de remuneração, mas de ego e validação. Em vez de união estratégica, observa-se rivalidade velada. Colegas deixam de celebrar conquistas uns dos outros e passam a questionar cada reconhecimento concedido. O mérito transforma-se em suspeita.

A promoção torna-se motivo de murmuração. E o ambiente institucional perde a leveza necessária para produzir resultados consistentes. Inveja-se o colega que conquistou a confiança do superior com trabalho sério e contínuo. Em vez de inspiração, surge o ressentimento. Em vez de autocrítica construtiva, nasce a tentativa de descredibilizar. Espalham-se inverdades, levantam-se dúvidas sobre carácter e insinuam-se favorecimentos inexistentes. Essa prática é profundamente nociva.

Não apenas porque atinge pessoas, mas porque corrói a cultura organizacional. Onde há desconfiança permanente, não há excelência sustentável. É preciso afirmar com clareza que instituições não são edifícios, são pessoas. Sem pessoas comprometidas, não há missão cumprida. Sem respeito mútuo, não há credibilidade. Quando colaboradores se transformam em adversários, o foco deixa de ser o serviço público. Passa a ser a disputa interna por espaço e reconhecimento. Essa inversão de prioridades compromete o propósito institucional.

E fragiliza a imagem do próprio Estado. A inveja nasce, muitas vezes, do medo. Medo de perder protagonismo. Medo de não ser promovido. Medo de ser ultrapassado por alguém mais preparado. Mas o medo não pode governar ambientes profissionais. Instituições maduras exigem maturidade emocional e profissional. Quem se sente ameaçado pelo crescimento do outro revela insegurança, não competência.

Não é normal odiar o chefe apenas por exercer autoridade. Liderar implica tomar decisões difíceis e assumir responsabilidades. Discordar faz parte do processo democrático interno. Mas transformar discordância em inveja é desvio de carácter. O respeito hierárquico não exclui pensamento crítico. Contudo, exige postura ética. E ética não combina com ressentimento.

Também não é aceitável invejar o colega promovido por mérito. Promoções são, na maioria das vezes, resultado de dedicação consistente e compromisso comprovado. Quem investe em formação contínua e entrega resultados tende a destacar-se. Em vez de atacar o outro, cada profissional deveria perguntar-se onde pode melhorar. A concorrência saudável eleva padrões.

A inveja destrutiva reduz todos ao mesmo nível de mediocridade. Inventar inverdades para manchar reputações é uma das expressões mais graves desse problema. O carácter de um profissional leva anos a construir. Pode ser ferido rapidamente por boatos irresponsáveis. Quem recorre a essa prática demonstra fragilidade ética. E compromete a própria credibilidade perante colegas atentos.

Nenhuma carreira sólida se constrói sobre a queda do outro. Ambientes dominados por inveja tornam-se emocionalmente pesados. Reuniões deixam de ser espaços de construção colectiva e passam a ser arenas de disputa silenciosa. A tensão constante adoece equipas. A produtividade diminui. A criatividade retrai-se. E o entusiasmo desaparece. Nenhuma instituição evolui sob clima de hostilidade interna.

Enquanto colaboradores se concentram em rivalidades internas, os desafios externos acumulamse. Problemas estruturais permanecem sem solução. Metas estratégicas são adiadas. A qualidade do serviço prestado ao cidadão sofre impacto directo. A instituição perde eficiência. E o descrédito instala-se de forma gradual, mas consistente. É urgente resgatar valores como união e solidariedade.

O trabalho em equipa não é discurso decorativo, é necessidade estratégica. Instituições públicas enfrentam desafios complexos que exigem cooperação genuína. Quando há partilha de conhecimento, todos crescem. Quando há sabotagem interna, todos perdem. A escolha é colectiva, mas a responsabilidade começa no indivíduo. Investir na própria qualificação é sempre mais produtivo do que diminuir o outro.

Estudar, formarse, actualizar-se e desenvolver competências fortalece a autoconfiança. Profissionais seguros não se sentem ameaçados pelo brilho alheio. Pelo contrário, reconhecem nele oportunidade de aprendizagem. Essa é a postura de quem deseja crescer com dignidade. E dignidade não se negocia. Quando um cresce por mérito, não retira espaço de ninguém. Abre precedentes positivos.

Demonstra que o esforço compensa. Inspira outros a dedicarem-se mais. Cria cultura de excelência. E eleva o padrão institucional. Essa deveria ser a lógica predominante nos serviços públicos. A inveja é, de facto, a maior tala lançada entre colegas nos locais de trabalho. Não por forças místicas, mas por atitudes conscientes. É escolha alimentar ressentimentos.

É decisão permitir comparações destrutivas. Mas também é possível escolher maturidade. É possível optar por cooperação estratégica. E essa escolha determina o futuro institucional. Instituições fortes constroem-se com carácter. Carácter traduz-se em ética, respeito e compromisso com o bem comum. Sem esses pilares, qualquer reforma administrativa será superficial.

O problema não é apenas estrutural, é humano. E reformas humanas exigem consciência e responsabilidade. Nenhum decreto substitui valores. Se queremos organismos públicos mais eficientes, precisamos enfrentar esse tema com coragem. Não se trata de expor pessoas, mas de corrigir comportamentos. A cultura da inveja precisa ser substituída pela cultura do mérito.

A intriga deve dar lugar à transparência. E o ressentimento deve ser vencido pela maturidade profissional. O verdadeiro progresso não nasce da competição destrutiva. Nasce da cooperação inteligente. Quando colegas se apoiam, resultados aparecem com maior consistência. A confiança fortalece equipas. A credibilidade institucional consolida-se.

E o serviço público cumpre a sua razão de existir. Nenhuma instituição prospera quando os seus membros caminham divididos. O desenvolvimento exige unidade estratégica. Exige visão partilhada. Exige compromisso colectivo. Onde há divisão interna, há fragilidade externa. E essa fragilidade cobra preço alto. No fim, o que permanece não é o cargo nem a função.

Permanece o carácter. Permanece a reputação construída com integridade. Permanece o legado deixado nas relações profissionais. A inveja pode ser a maior tala, mas o carácter é a maior libertação. E instituições só prosperam quando escolhem libertar-se desse mal silencioso.

Leia mais em…

Por: YARA SIMÃO

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