O jornal OPAÍS deslocou-se à Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto, onde entrevistou o decano Moreira Bastos, professor catedrático e filósofo. Durante a conversa, o conferencista internacional, formado na Alemanha, abordou vários aspectos de natureza social, política e cultural. Entre outros assuntos, desconstruiu a ideia de que a Filosofia não presta. Aliás, é uma ciência que permite reflectir problemas e encontrar sempre uma solução. O decano Moreira Bastos reiterou que se lê pouco em Angola; e isto tem atrasado o país em vários domínios da vida pública e privada
No plano restrito ou abrangente, como está o ensino da Filosofia em Angola?
O ensino da Filosofia está a andar de uma maneira aceitável. Publiquei recentemente um livro sobre “Os cânones da filosofia, História e Ensino no Contexto Angolano, Discursos, textos e contextos”, onde destaco um dos pontos sobre a história do ensino da filosofia em Angola, ou seja, a disciplinarização da filo- sofia angolana. Quando analisa- mos, em princípio, devemos partir do historicismo.
O ensino da filosofia em Angola começou em meados do século XX. A Igreja Católica desempenhou um papel importante nos seminários. Os liceus desenvolveram também um papel importante. No regime monopar- tidário, a filosofia também desempenhou outro papel. Só que, como na era colonial, a filosofia estava anexada à ideologia; não foi só no tempo do marxismo, não nos devemos esquecer disso. Só que, a partir do princípio do século XXI, o paradigma foi alterado, onde, graças a Deus, dirigi uma comissão criada para implementar o estudo da filosofia na Universidade Agostinho Neto (UAN), funda- mentalmente na Faculdade de Letras e Ciências Sociais, tendo em conta o paradigma universal. Foi a partir daí que, em 2004, começámos com a ministração de aulas de filosofia a nível da Faculdade de Letras e Ciências Sociais, não obstante o Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED) já ter também essa missão de ministrar filosofia. Mas, no ISCED, era a filosofia da educação, voltada para o ensino.Com a criação da Faculdade de Letras e Ciências Sociais, na altura, em 2002, a ideia era não que a filosofia estivesse voltada ao ensino, mas sim que estivesse também voltada à investigação. Fosse ela ministrada e vista do ponto de vista sistemático, rigoroso, lógico e universal. Foi assim que aconteceu!
Depois do período que acaba de citar, 2004, que resultados o ensino da filosofia trouxe para o país?
Muitos resultados. Hoje, como professor, tenho o orgulho de ter discípulos. Muitos dos meus ex- estudantes foram para a Europa e para as Américas e brilharam em grandes universidades, brilharam! Por uma questão ética, não vou citar nomes, mas estão aí. Hoje são dirigentes, são responsáveis. Formei muita gente neste país, muitos estão em lugares extraordinários e relevantes. É preciso acabarmos com esse mito falido de que a filosofia não presta; só em Angola é que há isso.
Então, adaptando-se à nossa re- alidade, deu-se ou não um passo com o pensamento filosófico?
Sim. É só ler este livro. Este livro espelha afectivamente a histó- ria da filosofia em Angola. É a visão de um filósofo angolano sobre a filosofia, passo o pleonasmo. O que fazemos está aqui. O que leccionamos está aqui. O que devemos saber sobre filosofia em Angola está aqui. A importância da filosofia está aqui. Quando estava a terminar este livro, em Portugal, na Europa, estava-se também a escrever um livro que foi publicado. Quem leu a penúltima ou última intervenção do Professor Lu- ís Kandjimbo, no Jornal de Angola (Domingo), ele faz uma análise sobre este livro “Cânones da filosofia, História e Ensino no Contexto Angolano, Discursos, Textos e Contextos”.









