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OPAÍS

António de Oliveira:“Há actores que, mesmo sem nada, se doam ao teatro por amor e paixão”

Sebastião Félixpor Sebastião Félix
30 de Janeiro, 2026
Em Entrevista
Carlos Augusto

Carlos Augusto

O teatro, arte de representar em palco géneros como comédia, drama e tragédia, com raízes na Grécia antiga, foi o mote para a conversa com o actor António de Oliveira, mais conhecido por Delon, que, entre outros assuntos, adiantou que é preciso investir mais e criarem-se políticas, à luz da Lei do Mecenato, a fim de se angariar patrocínios para se injectar nas artes cénicas e não só. Delon, homem de cultura, fez saber que o cinema angolano tem boas iniciativas; no entanto, é necessário criar linhas para cooperar além-fronteiras. Quanto ao carnaval de Luanda, que acontece de 14 a 17 de Fevereiro, António de Oliveira reitera que o slogan “da tradição à modernidade”, sem se perder a essência, é o caminho para tornar a festa popular mais brilhante nos próximos tempos

Qual é o estado do teatro em Luanda?

Primeiro, agradeço a oportunidade que me dão, tendo em conta a dimensão do vosso jornal, OPAÍS, e devo dizer que é sempre uma grande honra. E, quanto à sua pergunta, digo que o nosso teatro está bem. Temos estado a trabalhar naquilo que é a sua produção e também dentro da vertente das linhas técnicas e científicas do nosso teatro. Quando falo das linhas, estou abordar a mitologia, encenação, o papel, que é o elemento fundamental, ou seja, o padrão que leva a imagem para além do texto. O encenador e o actor têm responsabilidades acrescidas, mas o nível de formação das pessoas que estão à frente do teatro, para nós, já satisfaz. Temos escolas especializadas, uma delas é o CEARTE, no Camama, que vão colocando no “mercado” actores, encenadores, directores e outros quadros do sector. Tudo isso vem valorizar, cada vez mais, aquilo que é a qualidade do nosso teatro. O nosso teatro, temos a bênção de que, hoje, antigamente, não tínhamos esse movimento. Hoje temos festivais internacionais e com uma outra dinâmica. O festival do Cazenga, em Luanda, do Bié e do Huambo também anima a nossa praça. Agora, vai surgir o festival Armando Rosa e outros que envolverão outras áreas como a dança e a música.

Implica que estes elementos concorrem directamente para a qualidade que se deseja?

Certo, porque no festival se consegue ter a dimensão, avaliar a qualidade e ter uma perspectiva de que se está mesmo a caminhar para o futuro do melhor teatro para Angola, mas, como é evidente, alguns aspectos imediatos devem ser melhorados.

De que aspectos se refere?

Temos que melhorar, porque, querendo ou não, países como os da Europa, hoje o teatro lá tem suporte financeiro do Estado.

O que pretende dizer quando se refere ao suporte financeiro do Estado?

Há, directa ou indirectamente, formas de se apoiar o teatro. É uma arte que tem custos de produção, como cenário, iluminação e outras. Há até actores que, mesmo sem nada, se doam ao teatro por amor e paixão. Isso é que é manter uma das grandes armas de sempre da cultura angolana. Neste momento, os actores querem assumir uma linha profissional, por isso querem ter este retorno.

A bilhética resolve ou não esta questão?

A bilhética não consegue resolver esses problemas por ser uma produção de arte que implica uma política de marketing e ela não é barata. De quando em vez, aparecem por aí grupos espontâneos, com cinco, seis actores, montam uma peça, há uma publicidade boa, mas pronto, querendo ou não, acaba prejudicando a maioria e a qualidade do bom teatro que existe. Por isso, não é o Estado pegar em dinheiro para o teatro, mas criar políticas que garantam a sustentabilidade do teatro.

Que políticas seriam?

Por exemplo, a Lei do Mecenato, que visa criar incentivos e apoios do Estado a entidades que financiam projectos culturais, sociais, desportivos, científicos, tecnológicos e até de saúde, pode ajudar 100 por cento o teatro. A política dos direitos de autor também pode ajudar, até certo ponto, aquilo que são fontes de financiamento. É só as políticas serem funcionais. O Executivo, por essa via, deve fiscalizar os entes apoiados. Tal como a Administração Geral Tributária (AGT) entra nos bairros para fazer o seu trabalho, é uma obrigação em todo o mundo, não se pode abrir um negócio e não se pagar imposto. Com base neste pressuposto, os homens do teatro devem “exigir” o Estado que financie os “mecenas” e algumas empresas, dentro das suas políticas sociais, também podem entrar neste processo cultural que só ajuda Angola a crescer.

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