O fundador da Nação angolana, Dr. António Agostinho Neto, está em todo o lado. O seu rosto estampa a nota de kwanza, o seu nome baptiza a principal universidade pública, o aeroporto internacional, avenidas e escolas em todas as províncias.
O Memorial Dr. António Agostinho Neto (MAAN), em Luanda, é o maior monumento do país. O 17 de Setembro, data do seu nascimento, é feriado nacional desde 1980. E, no entanto, Neto está ausente. Não da geografia, mas da consciência colectiva.
Não da pedra, mas do exemplo. A omnipresença monumental de Neto coexiste com uma ausência substantiva da sua dimensão pedagógica e inspiradora. Ele foi transformado numa figura de informação, não de formação. É mencionado, mas já não é vivido. Agostinho Neto é a figura que transcendeu a condição de cidadão para se tornar o vector da in dependência.
Outros líderes fundadores do MPLA e outros movi mentos independentistas tiveram papéis importantes na luta anticolonial, mas Neto possui um esta tuto ímpar.
Foi ele quem proclamou a independência a 11 de Novembro de 1975, quem presidiu ao primeiro governo soberano, quem sintetizou na sua própria biografia – médico, poeta, político, preso, exilado – a trajectória colectiva de um povo em busca de libertação. Mas existe diferença entre reconhecer a centralidade histórica de Neto e encerrá-lo numa pertença partidária.
O primeiro é um acto de justiça histórica; o segundo é uma redução que empobrece tanto o legado quanto a nação. E esse encerramento tem sido alimentado por leituras que, de um lado e de outro, transformam Neto em recurso de legitimação em vez de o assumirem como património comum.
Quem frequentou o ensino primário em Angola nas décadas de 1980, 1990 e no princípio dos anos 2000 recorda-se de como Neto era ensinado. Não como dogma. A sua vida era narrativa viva.
O meni no de Caxicane que estudava com sede de saber, o jovem que escrevia poemas enquanto era perseguido pela PIDE, o médico que tratava os mais pobres, o líder que dizia que “o mais importante é resolver os problemas do povo”.
Neto era o espelho onde a criança angolana de via mirar-se para cultivar o gosto pelo estudo, a dedicação ao trabalho, o respeito pelo bem comum. Actualmente, a situação é diferente. Neto permanece no currículo escolar, mas já não é ensina do para inspirar. É ensinado para informar. Os alunos aprendem datas, factos, episódios biográficos, mas raramente internalizam valores.
A sua obra poética, Sagra da Esperança, Renúncia Impossível, que outrora era lida e discuti da como instrumento de formação cívica, hoje raramente chega às mãos dos estudantes. Esta preocupação é partilhada por muitos académicos angolanos.
José António Nahambo, professor de Filosofia no ISCED da Huíla, alertou que “a ausência dos textos de Neto no ensino primário e secundário representa uma falha que impede que as novas gerações desconheçam profundamente os ide ais de unidade, patriotismo e justiça social defendidos pelo Poeta e Estadista”.
Por: EDMUNDO GUNZA










