Há pessoas que não acor dam de manhã; estreiam um episódio. Antes mesmo de escovar os dentes, já abriram a câmara frontal, ajeitaram o ângulo, fizeram a cara de quem acabou de herdar uma for tuna e publicaram: “Bom dia, família. Hoje acordei grato.”
Grato a quem, ninguém sabe. Talvez ao filtro. Vivemos numa época em que a realidade passou a ser considerada pouco fotogénica. A vida real, coitada, perdeu espaço para a vida editada.
O pequeno-almoço pode ser pão com chá, mas na fotografia aparece uma mesa digna de banquete presidencial. O quarto pode ter uma lâmpada cansada e uma cadeira com três meses de roupa acumulada, mas o enquadramento mostra apenas a parede bonita. E assim nasceu uma nova profissão: vendedor de ilusões com pacote de dados.
O influenciador moderno não vende apenas produtos. Vende uma versão da vida que parece ter si do lavada com detergente de luxo. Tudo é perfeito: o cabelo acorda penteado, a pele nunca conhece espinhas, o relacionamento nunca discute e até a tristeza, quando aparece, vem com boa iluminação.
Há quem publique uma foto grafia num restaurante e escreva: “Momentos simples.” Simples? Meu irmão, aquilo não é simplicidade. Aquilo é uma pequena reunião do Conselho de Administração do luxo.
E o mais curioso é que, muitas vezes, quem observa acredita. O jovem vê o influenciador com um carro alugado e pensa: “Também preciso de um.” A menina vê a influenciadora com uma mala caríssima e conclui: “A minha vida está atrasada.” O casal vê outro casal sorrindo numa praia e começa a questionar o próprio relaciona mento:
“Amor, por que nós nunca somos felizes assim?” E o ma rido, olhando para a conta bancá ria, pensa: “Porque aquela praia provavelmente custa mais do que o nosso salário.”
Por: ANDRÉ CURIGIQUILA








