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OPaís

Vendedores de sonhos

Jornal OPaís por Jornal OPaís
4 de Setembro, 2026
Em Opinião

Entendemos que cada um tem a sua escolha, sua opinião, seu modo de ver o mundo. Isso é democracia até no quintal. Cada um planta o que quer e colhe o que planta. Mas entenda uma coisa, JJ: quando tens o maior poder de influência, quando o teu rosto vira capa e a tua voz vira ringtone, tu deixas de ser só “cada um”. Tu viras espelho. E espelho torto deixa a casa toda torta. Ainda mais quando noutrora eras a voz que dava luz no escuro.

Quando eras o grito que a gente repetia no táxi, no musseque, na manifestação. Estávamos no Largo 1º de Maio. Gasosa morna, net a falhar e o calor a apertar. JJ me olhou por cima do copo: — Ó AJ, sempre com esses problemas sociais? O que houve dessa vez? — Estive a observar, mano. A analisar o posicionamento de certos artistas angolanos. Respirei fundo. A garganta estava seca de tanto ver.

— Conclusão: esses indivíduos são vendedores de sonhos. Igualzinho aos políticos em véspera de eleições. Até parecem cães famintos, que tudo fazem para terem um simples osso no prato. Isso até é repugnante. JJ riu. Mas foi um riso seco, de quem já viu isso antes. — Estás há anos com essa tecla. E daí? — Daí que estou cansado de decepção. Cansado de ver microfone que só canta quando o cheque cai.

Cansado de post de “força Angola” na segunda e silêncio na sexta, quando a rua está a ar der. Cansado de verso bonito pra vender bilhete e discurso vazio pra agradar poder. O artista tem um véu. Não de plebeu. Um véu de rei. Cobre, encanta, protege. A gente olha e diz: “se ele disse, é porque é verdade”. E aí damos esperança. Emprestamos a nossa fé pra ele guardar. Só que tem uns que guardam mal.

Prometem aurora e entregam prisão. Vendem kizomba de amor no palco e na vida real o carinho vira grilhão. Falam de “povo” na música e somem quando o povo precisa de voz. São os 2Pac angolanos. Peito estufado, corrente de ouro, discurso de revolução no estúdio. Mas na hora da verdade, envergonham o Rap com discurso bajulador. Diziam ser incorrigíveis. Juravam que não se vendiam.

Acabaram sendo corrigidos pelo osso. Na verdade, aquela energia toda era só fome. Era só necessidade de querer aparecer. De querer estar na foto. E não é pra generalizar. Seria in justo. Tem gente séria. Tem voz que vira martelo, que parte pedra, que planta no mato. Tem artista que desce do palco e vai pra rua. Esses eu tiro o chapéu e calo a boca. O problema é a maioria que virou vitrine. Sorriso pra foto. Verso pra vender. Causa pra marcar. Bandeira só quando dá like. JJ ficou calado. Mexeu no copo.

O gelo já tinha derretido. — E agora, AJ? Vamos cancelarto do mundo? — Não, mano. Agora o plebeu aprende. Aprende a não comprar sonho fiado. A esperança a gente planta no quintal, rega com trabalho e colhe sem pedir autorização pra ninguém.

Se o artista cala quando o povo grita, pra que serve a arte? Se o microfone só serve pra ecoar vaidade, melhor voltar pro mato. Sem perdão. Porque no fim, JJ, eu continuo sen do plebeu. Mas plebeu que já não aplaude de olhos fechados. Plebeu que aprendeu a ouvir com o ouvi do e com o coração. Rimo-nos um pouco. E ao fundo, um kinguila qualquer pôs prato car Zé Tubia. — JJ, olha, desse eu gosto. Um semba de raiz. Não lírico, mas um semba satírico.

Me lembra o kota Bonga, Paulo Flores, entre os outros grandes dessa música. Gente que cantava pra doer e pra curar. JJ virou o copo. — AJ, dizem que esse aí é feito de IA. Inteligência Artificial. Soltei o ar. Olhei pro céu de Luan da. — Meu irmão, melhor ouvir um artista que usa a IA para criar uma grande arte, do que um homem de carne e osso que canta sem alma. E a música seguiu. E nós, dois plebeus, seguimos ouvindo.

Por: ANTÓNIO ARMANDO JORGE

Professor, linguista, literato e escritor

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