O jornal OPAÍS dirigiu-se à Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto (UAN), no Hospital Américo Boavida, em Luanda, onde entrevistou a geneticista Madalena Chimpolo, for mada em ciências biomédicas na Inglaterra. A professora universitária, que também ocupa a presidência da Agência Angolana Antidopagem, entre outros assuntos falou da importância da genética na vida do ser humano. Recentemente, a geneticista angolana, pelos trabalhos que tem feito nesta área, foi distinguida pela Upstate Medical University, New York, Syracuse, nos EUA, onde, como professora convidada, proferiu uma comunicação científica sobre educação no plano académico
Numa definição simples, o que é a genética?
A genética, nu ma definição mais simples, é um ramo da Biologia que estuda os genes, a hereditariedade e a variação dos seres vivos, procurando compreender como as características biológicas são passadas de geração em geração, assim como as suas alterações. O material genético é fundamental para a com preensão de doenças, particular mente as hereditárias, e também da nossa saúde. Temos muitas. Há, por exemplo, a anemia falciforme.
É preciso compreender a genética para se saber como é que ela passa de pais para filhos e para se retirar aquele tabu existente em determinadas localidades de que o tio ou o avô é feiticeiro.
Portanto, olhamos para as doenças de predisposição comum, para o diagnóstico molecular e para a medicina personalizada, que agora está cada vez mais na moda, porque, se alguém tiver uma doença, tomar um medica mento e este resultar, poderá não ter o mesmo resultado noutra pessoa, por serem geneticamente diferentes. Então, é preciso compreender o perfil genético da primeira e da segunda pessoa.
Neste processo, onde entra o monge austríaco Gregor Mendel?
Gregor Mendel é considerado o “Pai” da Genética, pois revolucionou esta área do conhecimento. Importa lembrar que, na sua época, não se falava muito sobre genética, mas ele fez algo muito importante: deixou tudo minuciosamente anotado, observando todas as características. Isso tornou-o não só o “Pai” da Genética, como também permitiu revolucionar a metodologia científica.
Os que o seguiram olharam para as suas anotações, refizeram os passos e chegaram às mesmas conclusões. Esta é a beleza da investigação científica. Até hoje, todo o mesmo processo é segui do.
Por isso, sempre que se lê um artigo científico, há uma introdução, porque é preciso contextualizar; depois vem a metodologia, in dicando o que se vai fazer; e, a seguir, os resultados. Assim, já no século XIX, Gregor Mendel tinha observado esses processos.
O que é o DNA? No século XX, em 1953, James Watson, Francis Crick, Rosalind Franklin e Maurice Wilkins deram um grande contributo ao descre verem a dupla hélice do DNA. Isto revolucionou a Biologia Molecular, porque havia o início dos estudos de Gregor Mendel, que consistiam em observações físicas das ervilheiras. Nesse período, já se conhecia o DNA, que até hoje nos permite olhar para a dupla hélice, constituída por nucleótidos, onde também encontramos a Bioquímica, da qual fazem parte os genes associados às doenças.
É aí que se faz a ligação completa entre genética, gene e doença, surgindo também os grandes projectos do genoma humano. Quase todos os países iniciaram esses projectos, porque, actualmente, a genética não é apenas uma disciplina, mas também uma especialidade da Medicina. A Genética Humana é uma especialidade e está no centro da medicina moderna.
Qualquer faculdade de Medicina ou hospital que se preze deve ter uma área de genética, porque esta contribui para o diagnóstico precoce e para a prevenção terapêutica dirigida à medicina de precisão, à qual todos deviam ter acesso. Ela transforma profundamente o modo como as doenças são hoje compreendidas e tratadas. Já não é um processo empírico como antigamente; hoje é necessário muito mais do que isso.








