Me pediram para escrever algumas linhas sobre o papel de uma TV parlamentar. O motivo é justo: Angola acaba de inaugurar a TV da Assembleia Nacional. Seria precipitado realizar qual quer análise aprofundada sobre essa nova emissora, pois ainda é um projecto embrionário.
O que sabemos é que nasce com a promessa de seguir os princípios básicos do bom jornalismo: neutralidade, isenção e pluralidade. Se não posso avaliar o presente angolano, posso, com a bagagem de quem respira televisão há mais de trinta anos, compartilhar a experiência brasileira e apontar as armadilhas que surgem quando se coloca uma câmera no plenário.
No Brasil, a TV do parlamento funciona por meio de dois canais: a TV Senado e a TV Câmara. Ambas nasceram na década de 1990 com um propósito nobre: transmitir as actividades do Congresso 24 horas por dia, sem veicular publicidade comercial.
A ideia central era permitir que o cidadão acompanhas se, sem filtros, o trabalho daqueles que elegeu. Para garantir a lisura, as duas emissoras transmitem os eventos políticos na íntegra, sem cortes. Não se pode negar o valor histórico dessas emissoras.
Elas foram os olhos da população em momentos cruciais da jovem democracia, como o impeachment da ex-presidente Dilma Rousse ff, as sessões da CPI da Covid-19 e diversos julgamentos de impacto nacional.
Mais do que isso, prestam um serviço inestimável à imprensa: fornecem imagens limpas e gratuitas a emissoras públicas e privadas, facilitando a cobertura do dia-a-dia político. É um modelo robusto, que segue tendências internacionais de sucesso, como a BBC Parliament, no Reino Unido, e a ARTV, em Portugal. Mas quando há holofotes, há muita exposição.
Com a explosão das mídias sociais, o jogo mu dou. Hoje, muita gente acompanha apenas os “recortes” dessas transmissões, aqueles vídeos curtos que viralizam no WhatsA pp. E adivinhem o que mais viraliza? O confronto. A briga. Esse é um dos maiores problemas desse tipo de cobertura hoje.
As imagens oficiais, geradas com dinheiro público para promover a transparência, acabam sendo usadas indevidamente nas redes sociais, seja para inflar a imagem de um aliado, seja para destruir a reputação de um adversário. A exposição midiática da casa legislativa tem, portanto, dois polos.
O lado positivo é inegável: educa o cidadão sobre o processo legislativo e traz luz aos porões da política. O lado negativo é o uso politiqueiro dessa vitrine. Discussões acaloradas tomam conta das redes sociais, e o desgaste da imagem do meio político perante a sociedade torna-se inevitável. Isso nos leva a um fenómeno perigoso: a síndrome do “parlamentar-actor”.
Muitos políticos, cientes de que a luz vermelha da câmera está acesa, abandonam o debate técnico e elaboram discursos puramente midiáticos, de alto impacto popular.
Usam a TV da casa como um palanque particular para autopromoção, gritando para a própria claque, sem oferecer qual quer eficiência real para melhorar a qualidade de vida da população. É a vaidade se sobrepondo ao dever público.
Por fim, faço uma crítica técnica, e me incluo nela como profissional de televisão: os programas produzidos por essas emissoras (fora as transmissões ao vivo) costumam ser extremamente engessados. Faltam linguagem televisiva moderna e atractividade.
O resultado é uma programação de baixíssima audiência, o que é difícil de justificar diante do alto custo que essas estruturas representam para os cofres públicos.
A experiência me ensinou que uma TV não se sustenta apenas com boas intenções institucionais; ela precisa saber contar histórias para prender a atenção de quem está do outro lado da tela.
E aqui deixo o meu conselho construtivo para a nova TV da Assembleia Nacional de Angola: não se contente em ser apenas um espelho estático do plenário.
A TV Parlamento angolana tem a oportunidade de aprender com os erros dos outros. Invistam em uma linguagem dinâmica, em programas de debates plurais que traduzam o “politiquês” para a língua do povo.
Fiquem atentos para não permitir que a emissora se torne um palco para a vaidade de meia dúzia de políticos, mas sim uma verdadeira escola de cidadania.
Que a câmera sirva para iluminar as boas ideias e não para ofuscar o debate com brigas ensaiadas. Desejo, sinceramente, uma vida longa e muito sucesso à TV da Assembleia Nacional. Que ela seja os olhos de Angola voltados para o seu próprio futuro.
Por: WILLIAN CORRÊA
*Jornalista, consultor de mídia e fundador da World of Idea, consultoria especializada em emissoras de televisão. Trabalhou como director executivo da TV Zimbo (Angola) e como director de jorna lismo da TV Cultura e da TV Band. Escreve semanalmente sobre televisão, mídia e comunicação. Contatto: williancorrea@worldofidea. com








