A indicação de Aliou Cissé para comandar os Palancas Negras é uma aposta que carrega simbolismo, ambição e, acima de tudo, responsabilidade. Cissé não chega como uma aposta qualquer; vem com o peso de quem já escreveu história no futebol africano, de quem conhece os corredores da pressão, a gestão das derrotas e o barulho ensurdecedor das vitórias.
É um homem de método, exigente e disciplinador, daqueles que não aceitam “curvas” quando o destino é grande. E isso, para um futebol como o angolano, que há muito procura afirmação, é meio caminho andado para a mudança.
Mas o futebol não se constrói apenas com boas escolhas no topo. Um treinador, por mais competente que seja, não trabalha sozinho, precisa de uma estrutura que funcione, de uma retaguarda organizada, de um departamento de selecções que respire profissionalismo em cada detalhe. A Federação Angolana de Futebol acertou no nome, mas agora precisa provar que também acerta no suporte da estrutura competitiva.
Porque não basta querer ganhar, é preciso criar condições para ganhar. Durante muito tempo, a selecção nacional foi tratada como um espaço de experiências, de testes constantes, de decisões que nem sempre privilegiavam o mérito, e isso custa caro. Uma selecção não pode ser um laboratório, mas sim, o palco. E no palco entram os melhores, os que estão preparados para representar um país e não para aprender à custa dele.
Cissé, pela sua natureza, dificilmente permitirá esse tipo de desvio. A sua carreira mostra um treinador que privilegia compromisso, identidade e rigor. E talvez seja exatamente isso que os Palancas Negras mais precisam neste momento: uma ideia clara de jogo, uma hierarquia justa no balneário e uma cultura de responsabilidade que vá além dos noventa minutos.
Os resultados mais recentes não foram os desejados, é verdade. Houve muita frustração, dúvidas e até algum afastamento emocional entre a equipa e os adeptos. Mas o futebol tem essa beleza rara, a capacidade de recomeçar e este pode ser um novo ponto de partida.
Não se trata de esperar milagres imediatos, mas de reconhecer sinais. Se houver organização fora de campo, critério nas convocatórias e compromisso dentro das quatro linhas, o sucesso deixa rá de ser uma promessa para se tornar uma consequência natural.
O povo angolano pede isso: não apenas vitórias, mas uma equipa com identidade, com alma e com sentido de missão. Uma equipa que entra em campo não apenas para jogar, mas para representar o país e os angolanos.
E talvez, com Aliou Cissé ao leme, estejamos mais próximos de voltar a acreditar que os Palancas Negras podem, novamente, caminhar com firmeza entre os grandes do continente berço.
Por: Luís Caetano









