O Volvo 009 não era apenas um camião; era um amigo confidente sobre rodas e o trono onde o Kota Lukenda guardava todos os seus amores e desamores que conhecia em cada viagem por Angola. Quando já sentia a idade a somar e a vitalidade a dar lugar ao corpo cansado, convidou, nu ma dessas viagens, o seu sobrinho Katimba, para conhecer o império familiar que havia cria do sob segredo dos deuses, revelando, assim, a sua complexa vi da amorosa. A jornada começou no Benfica.
O motor roncou com força e seguiu estradas adentro, mas a primeira paragem não tardou. Em Catete, o Kota Lukenda estacionou o gigante Volvo 009, de cor branco e preto, com uma precisão de quem conhece o asfalto quente da Estrada Nacional 230. Mal acabou de estacionar, surgiu a mana Kinguixa.
O olhar entre os dois não era de quem se viam de passagem, mas de quem partilhavam uma vida. Katimba ficou boquiaberto ao saber que, naquela paragem de beira de estrada, o tio escondia uma relação de seis anos e dois filhos que cor riam a chamar “papá” assim que viam o Volvo 009 a chegar. Momentos depois, o Volvo voltou a tocar a estrada, seguindo o seu percurso.
Já no povo ação de Maria Teresa, o cenário mudou. Entre o verde das aldeias próximas à estrada principal, surgiu a tia Lolita. Com os seus olhos azuis que pareciam refletir o céu de Angola e a pele mestiça, ela era o porto seguro do Kota naquela zona. Ali, mais três fi lhos somavam-se à linhagem do camião 009. Katimba, no banco do acompanhante, já não sabia se admirava a destreza do tio no volante ou a sua capacidade de gerir tantos corações.
Ao chegarem ao Dondo, o calor da terra misturava-se com o calor do acolhimento da mana Felinha. Dez anos de estrada tinham selado aquela união, que já contava com seis filhos. Felinha tratava o Kota como um rei que regressava da guerra, sem saber que o seu rei tinha outros castelos pelo caminho. A subida continuou até Ndala tando. Lá, a linhagem do Kota Lukenda ganhou contornos de nobreza tradicional.
Joana Caramba, a filha do Soba da Aldeia da Povoação de Mungu, esperava por ele. Era uma aliança que unia o asfalto à tradição da terra, con solidando o respeito que o Kota impunha por onde passava. Na sequência, no Lucala, a paragem foi marcada pela presença de Rosa das Pedras.
O nome fazia justiça à sua força, pois ali o Kota Lukenda tinha a sua maior “frota” familiar: oito filhos que rode avam o Volvo 009 como peque nos ajudantes de mecânica.
Katimba já tinha perdido as contas, mas o destino final ainda estava por chegar. Em Malanje, o ponto de viragem da viagem, vivia Manana. Uma mulher mbaka de porte elegante e olhar profundo. Ao contrário das outras, Manana não tinha dado filhos ao Kota, mas dava-lhe o silêncio e o repouso que as longas viagens exigiam. Era o seu refúgio final antes de fazer o caminho de volta.
O destino, porém, é uma estrada sem retorno. Quando o motor do Volvo 009 se calou para sempre e o Kota Lukenda deu o seu último suspiro, a verdade saltou do tablier para a realidade. O velório aconteceu na casa da Tia Florença, a matriarca.
Florença, que durante décadas cuidou do lar principal e dos treze filhos do casal, viu a sua sala tornar-se pequena. À medida que as horas passavam, as carrinhas de aluguer e os autocarros iam chegando. De Catete veio Kinguixa; de Maria Teresa chegou Lolita; do Dondo apareceu Felinha; de Ndalatando veio a filha do Soba; de Lucala chegou a Rosa com a sua multidão de crianças; e, finalmente, de Malanje, chegou a silenciosa Manana.
O óbito do Kota Lukenda não foi apenas um momento de dor, mas a maior conferência familiar que Angola já viu. Ali, entre o choro e o espanto, as mulheres do Volvo 009 olharam-se umas para as outras e perceberam que, embora o Kota tivesse apenas um volante, o seu coração era um mapa onde todas tinham um lugar marcado. O Kota Lukenda partiu, mas dei xou para trás uma estrada cheia de herdeiros, todos unidos pelo rasto de fumo e pela saudade do lendário Volvo 009.









