Há cartas que não se escrevem para receber resposta. Escrevem-se porque o silêncio pesa demais e porque algumas histórias precisam de ser ditas em voz alta. Esta é uma carta para o meu pai, que já partiu há quinze anos, mas também, é uma carta para muitos pais que ainda estão vivos e que, mesmo respirando, decidiram abandonar os filhos.
É uma carta que nasce da dor, mas também da necessidade de fazer pensar. Porque a ausência de um pai não desaparece com o tempo. Ela instala-se na vi da dos filhos e acompanha-os durante muitos anos.
Passaram quinze anos desde que partiste, pai. Quinze anos de silêncio, de perguntas sem respos ta e de memórias que regressam quando menos esperamos. Não sei de que lado estás, se do paraíso ou do inferno. A verdade é que, quando partiste desta vida, já fazia mui to tempo que também tinhas parti do da nossa.
Não convivíamos, não sabíamos quase nada da tua vida e tu também não sabias quase nada da nossa. Ficaram apenas as lembranças e as marcas da tua ausência.
Às vezes penso que talvez estejas no inferno, pai. Não digo isto apenas por revolta, mas pela dor que ficou. Tiraste-me o título de caçula e ou vi dizer que me deixaste um irmão que nunca conheci. Até hoje não sei quem ele é, onde vive, nem como cresceu. É estranho saber que existem pedaços da nossa história espalhada pelo mundo sem qual quer ligação connosco.
Histórias que começaram contigo, mas que nunca tiveram continuidade. Uma coisa, porém, sei com certeza. Abandonaste-nos quando eu tinha apenas nove anos de idade. Cresci com a mãe e com os meus ir mãos, tentando compreender por que razão um pai decide desaparecer da vida dos filhos. Como se isso já não bastasse, deixaste a mãe do ente e fragilizada, a carregar sozinha responsabilidades que deve riam ser partilhadas.
A nossa casa passou a ser um espaço de luta diária. E cada dia sem ti tornava a vida um pouco mais difícil. Lembro-me bem das vezes em que voltaste apenas por causa do dinheiro.
Por: YARA SIMÃO
Filha- Pai! Pai! Pai!
Pai- Sim. Filha- Nada. Só queria mesmo gritar o teu nome Pai- Sua Diquixi. (Macaca) A carta é para o meu pai, mas vocês são adultos.







