No Hotel Globo, na Mutamba, em Luanda, um espaço em que se respira, minuto a minuto, a palavra cultura em vários domínios, o jornal OPAÍS manteve uma conversa com o actor Orlando Sérgio, nascido em 1960, que entrou para o mundo do teatro aos 15 anos. Durante a entrevista, o actor falou das dificuldades por que passa o cinema angolano, assim como das oficinas que impedem a sua marcha. Entre outros assuntos, Orlando Sérgio adiantou que a ausência de cultura gera subdesenvolvimento e atraso num
O que o teatro representa para si?
O teatro é parte da minha vida. Comecei a fazer teatro aos 15 anos, em 1975. Fi-lo até agora. Ultimamente tenho feito muito menos, mas é muito complicado trabalhar em salas que não estão devidamente apetrechadas para o teatro, o que implica um esforço de produção muito grande. Normalmente, aqui em Angola, no nosso país, quando trabalho, acabo sempre por ser produtor. E isso dá-me uma canseira muito grande! Por isso, não tenho feito muito teatro e também não tenho recebido muitos convites.
Dias melhores virão quanto às salas apropriadas?
Felizmente, tenho de assinalar que, nos últimos tempos, temos assistido a um esforço do Executivo para reabilitar salas. Visitei o Centro Cultural do Namibe, que tem uma sala de espectáculos maravilhosa. Não só: tem mais duas. Visitei o Cine Estúdio, como lhe chamam, uma nova estrutura feita para o cinema, que resulta de uma antiga obra muito conhecida e muito celebrada, mesmo ainda sem estar pronta para espectáculos. Em Luanda, também assinalo um esforço pela reabilitação do Cine Nacional. Infelizmente, alguns desses espaços não estão a ser acompanhados por pessoas com suficiente informação sobre salas de espectáculos. Vejo alguns equívocos. Às vezes quer-se, ao mesmo tempo, ter uma sala de cinema e de teatro, ao que parece. Hoje, acho que o Cine Nacional, por exemplo, estava a ser pensado para se fazerem as duas coisas, como já foi em tempos idos.
Acho que devia ser apenas uma oportunidade para o teatro e, aí, situar uma Companhia Nacional de Teatro, se for preciso. Nos Alfas também tive contacto com esta obra e, também aí, esta tentativa de misturar teatro com uma sala de espectáculos que foi concebida para cinema, para que ali haja teatro, parece-me um pouco equivocada. Entretanto, há ainda alguns problemas acrescidos a isto, que é o facto de o nosso país ter ficado muito tempo sem projecções e sem salas de cinema, e o cinema ter deixado de ter público. Depois, as pessoas passaram a ver filmes nas televisões. E isto tem aumentado com o streaming, e é possível que as possibilidades sejam ainda maiores. Portanto, o acto social de ir ao cinema é uma coisa que se perdeu.
E é preciso, se quisermos apostar no cinema, voltar a educar as pessoas para isso. Para tal, é necessário ter projectos educacionais. É de pequenino que se torce o pepino. Há que recomeçar pela infância, é lógico, reconstruindo através do público. Também é preciso dizer que as salas coloniais foram dimensionadas numa altura em que não havia televisão. Elas eram as rainhas. Todos nós, quando éramos crianças, crescemos a ir ao cinema. Só eu, ao lado dos sítios onde morei, tinha até o cinema dos padres e o cinema de São Domingos. Na rua onde morava o meu pai, na Vila Alice, havia a Casa 70, a Casa Americana e, depois, havia o Cinema Império.
Império refere-se ao Cinema Atlântico?
Sim. Este acto de reabilitar é necessário, sim, mas é preciso pensar nas coisas com os dados novos de hoje, porque já há mais salas instituídas no país, salas a funcionarem nos centros comerciais, e hoje todas elas têm um problema: não têm público.
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