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Por onde anda o mérito?

Jornal OPaís por Jornal OPaís
27 de Fevereiro, 2026
Em Opinião

Por onde anda o mérito e as pessoas de mérito? Onde estão aqueles que, por merecimento próprio e excelência pessoal, brilham e impactam positivamente a vida das pessoas e das suas comunidades? Pessoas que, diariamente, alcançam os mais altos níveis da sua profissão e actividade sem dependerem de cunhas, favores de “titios” ou, em alguns casos, sem terem de passar pelo famigerado teste do sofá.

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Por onde andam as pessoas que fazem, de facto, acontecer a nossa Angola todos os dias, com brio, profissionalismo e honestidade? Pessoas que, contrariando uma maré enorme de desesperança, continuam a manter viva uma atitude optimista e inspiradora.

Onde está quem tem o mérito de dar o melhor de si diariamente, resistindo às várias tentações de se desviar do caminho, de corromper ou de se deixar corromper? Onde estão aqueles que resistem à tentação de abandonar o barco e repetir a velha frase que nos enterra todos os dias, “isso é Angola”, expressão que legitima maus hábitos e costumes, que autoriza, por exemplo, deitar lixo na via pública, desrespeitar os mais velhos ou dar “gasosa” a quem deveria ser guardião da honra e da sensatez.

Por onde andam os intelectuais que deveriam ser a nossa fonte de conhecimento e sabedoria? Aqueles que nos deveriam dar aulas públicas e gratuitas de saber viver; que nos deveriam ensinar a amar o conhecimento, a ciência e a técnica, em vez de nos afundarmos em distrações infinitas e sem valor acrescentado.

Onde estão os kotas, guardiões da moral, da ética e dos bons hábitos e costumes, que nos deveriam ensinar a amar a nossa terra, a ter honra e dignidade, a compreender o que é amar verdadeiramente a nossa pátria e a nossa gente? Em vez disso, vemos muitos desesperadamente a idolatrar a casa do vizinho, que, tal como a nossa, também tem problemas, com a diferença de que, lá, os kotas ensinaram os mais novos a amar a sua terra pelo exemplo.

Por onde andam os dikotas da banda, aqueles que desde cedo aprendemos a admirar e respeitar, que ninguém ousava desobedecer? Aqueles que, quando o pai ou a mãe não estavam por perto, nos chamavam à razão, nos ralhavam e nos puxavam as orelhas quando errávamos. Dikotas que eram os verdadeiros guardiões da ética e moral do bairro ou do nosso kimbo.

Onde estão os homens honrados, éticos e moralmente reconhecidos como sábios, com a capacidade incorruptível de fazer sempre o que é certo? Onde estão os estudantes do quadro de honra, que alcançam as melhores notas nas nossas universidades, nos cursos mais exigentes, como as engenharias, matemáticas e as medicinas? Esses deveriam ser os exemplos destacados e apresentados, para que mais jovens se sintam inspirados por inteligências reais, e não artificiais, e para que os nossos canais de comunicação social os apresentem como verdadeiros modelos. Onde estão as nossas histórias de sucesso? As histórias de jovens que acreditaram e que, mesmo tendo nascido e crescido nos bairros mais recônditos, nos musseques ou nos guetos, venceram com honestidade e honra.

Onde estão os sonhadores que nos fazem sonhar com as suas histórias inspiradoras e nos levam a acreditar que é possível, que devemos sonhar e que, independentemente das circunstâncias, cabe a cada um de nós escolher o melhor caminho a seguir. Por onde andam os nossos escritores, autores, criadores e fazedores de arte, que nos ensinam a apreciar o belo e o imaginário? Aqueles que nos ajudam a interpretar o invisível, a tornar o impossível em algo palpável e real, levando-nos a viajar pelas profundezas do nosso subconsciente criativo e produtivo.

Onde estão os nossos desportistas de sucesso, os nossos campeões e medalhistas, aqueles que nos fizeram sorrir, chorar e vibrar de alegria? Por onde andam os profissionais das diversas artes e ciências, os que dominam a medicina e curam os doentes das mais variadas patologias; aqueles que fazem longos turnos, em condições muitas vezes precárias, e que não recusam atender um paciente, mesmo quando faltam meios técnicos e medicamentos?

Onde estão os agentes da ordem que exercem a sua função com honra e brio, que recusam a gasosa, que protegem e respeitam o cidadão e cumprem a lei em todas as circunstâncias? Onde estão os candongueiros que conduzem os nossos “azulinhos” com segurança e cuidado, que respeitam as regras de trânsito, exigem o uso do cinto de segurança e zelam pelos seus passageiros?

Onde estão os comerciantes honestos, que fazem os seus negócios dentro da lei e resistem à tentação de enganar o próximo, mesmo quando as circunstâncias lhes são favoráveis? Onde estão os nossos homens e mulheres de honra? Por onde andam os servidores que defendem a bandeira com honra, que respeitam a farda como símbolo de uma nação que merece ser honrada e respeitada? Onde estão os homens e mulheres que honram a sua pátria e o seu povo, que não cospem diariamente nesta terra já tão sofrida e que tanto precisa de cada um de nós? Onde estão aqueles que têm obra feita e comprovada?

Os que não ficaram apenas pelo palavreado, mas transformaram ideias em prática concreta e visível? Por que razão continuamos a dar palco a papagaios cheios de teorias, mas vazios de obra? Urge dar espaço a quem faz ou fez acontecer. Chega de tudólogos e achistas que vivem de fantasias, afastam o mérito e destroem a competência de quem trabalha seriamente. Urge encontrar e destacar os nossos homens e mulheres de honra.

Urge apresentar à sociedade aqueles que, pelo seu exemplo diário, fazem esta nação avançar. Urge parar de dar destaque ao fútil, à distração oca, à banalidade e aos escapismos virtuais, e passar a valorizar quem pode inspirar os mais jovens com exemplos reais, práticos e construtivos. Urge deixar de patrocinar a futilidade e começar a valorizar o que nos une, nos faz crescer, evoluir e nos torna homens e mulheres melhores.

Urge encontrar os nossos pequenos, médios e grandes heróis, aqueles que, com coragem, superação e boas acções, transformam o nosso dia-a-dia e nos fazem voltar a sonhar e a acreditar nesta nação maravilhosa.

Por: OSVALDO FUAKATINUA

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