O jornalista, escritor e professor universitário José Luís Mendonça falou do uso da língua portuguesa enquanto ferramenta de trabalho e dos erros mais comuns cometidos por estudantes e alguns docentes. Na conversa descontraída, o professor, entre outros assuntos, adiantou que a língua é a alma de uma nação, por isso deve ter uma importância do topo à base. O jornalista fez saber ainda que a escassa produção de livros (manuais escolares) tem contribuído para o baixo nível de leitura, sobretudo às crianças que estão dentro e fora do sistema de ensino
Uma questão talvez provocadora. Que falantes do português temos hoje em luanda ou em Angola?
Em Angola, temos falantes do português dentro de um paradigma de confusão linguística.
O que é a confusão linguística?
É a mistura de vários acordos ortográficos, o do Brasil, o de Portugal e o acordo nosso, que é de 1945, porque o Brasil e Portugal adoptaram o acordo de 1990. Estivemos lá, assinamos, mas não ratificamos. Quer dizer que o nosso acordo é de 1945, por isso é que ainda temos a palavra facto com o “c”, por exemplo, baptismo com “p”.
É mesmo uma confusão ou não?
Aquele paradigma do acordo de 1990, sem as pessoas quererem, está na internet, está nas publicações do Brasil, que é uma forma de escrita que eles têm também, embora tenham ratificado o acordo de 1990, tem uma forma própria de escrever. António, por exemplo, é com o acento circunflexo “ô”, económico “ô” e outras palavras. Em Portugal não há. Nós também não. Como a pessoa tem uma publicação do Brasil, de um autor qualquer, encontra económico com acento circunflexo e passa a escrever com o acento circunflexo, depois pega numa publicação de Portugal, o Brasil tem mais publicações divulgadas na internet que Portugal, onde já tem o facto sem o “c”. Depois, como temos aqui um chamado português de Angola, que não existe, mas está em for- mação, que se diz, por exemplo, “que na qual” e “próchimo”. Então, sem saber que são dois pronomes relativos juntos e não podem estar juntos, porque um pronome substitui uma palavra.
A que se deve isso?
Ao sistema de educação, e não é só a escola. Um sistema de educação, em qualquer parte do mundo, é um sistema muito amplo que inclui a quantidade de livros que o país produz por ano, sejam livros de Medicina, História, Geografia e manuais escolares. Não são só os professores e as escolas. Esse sis- tema de educação e ensino, que é muito vasto, é que forma o cidadão para poder trabalhar com precisão na indústria, na agricultura, no Estado. E também, por exemplo, na minha área, em que eu sou escritor. Um país só tem bons escritores quando tem uma educação de qualidade. Ele até pode não andar na escola, mas se encontra livros que possa ler, torna-se uma autodidacta, como foi José Saramago em Portugal, o Prémio Nobel da Literatura em 1998. Hoje, José Craveirinha, em Moçambique, que só estudou até ao quarto ano, mas amarrou muito numa biblioteca em casa, que eu fui lá ver quando estive em Moçambique, antes de ele morrer. O principal problema deste país é a escassa produção de livros. Este é o problema!
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