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A eterna luta entre o jornalismo e a assessoria de comunicação

Jornal OPaís por Jornal OPaís
17 de Fevereiro, 2026
Em Opinião

Há 10 anos, nas vestes de coordenador de comunicação institucional e imprensa da III Trienal de Luanda da Fundação Sindika Dokolo, tive um breve encontro com o jornalista Adebayo Vunge, de fronte ao Ministério das Finanças, em que me tinha apresentado como jornalista. Na sequência, mostrei-lhe intenção de convidá-lo a um dos projectos de formação que tínhamos em carteira.

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No mesmo instante, questionou-me se actuava como jornalista ou como assessor de comunicação? A resposta foi rápida e sem rodeios: como assessor de comunicação, respondi. Durante anos, em Luanda, particularmente, quase que ninguém estudava comunicação social ou jornalismo pensado em trabalhar como assessor de comunicação ou de imprensa. O sonho dourado foi sempre ser jornalista. Ser jornalista, além de ser uma paixão para muitos, até aos dias de hoje proporciona prestígio social, sendo considerado um sacerdócio.

Este sacerdócio, porém, nem sempre valorizou “financeiramente” os seus filhos fiéis, levando muitos a abdicar da profissão em favor da assessoria, enquanto outros conciliam ambas funções antagónicas, apesar das questões deontológicas envolvidas. À luz da Lei n.º 5/17 de 23 Janeiro (Lei sobre o Estatuto do jornalista), no artigo 2º, define jornalista como aquele que, como ocupação permanente e remunerada, exerce funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de factos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinadas à divulgação informativa pela Imprensa, agência noticiosa, rádio, televisão ou por outra forma de difusão massiva.

Ao passo que no artigo 5º da mesa Lei, esclarece que o exercício da profissão de jornalista é incompatível com o desempenho de funções em agência de comunicação, relações públicas, incluindo a concepção ou apresentação de mensagens publicitárias por texto, voz ou imagem. Também impede ainda a execução de estratégias comerciais e a divulgação de produtos ou serviços.

O jornalista que se enquadre nessas incompatibilidades fica impedido de exercer a actividade, devendo depositar a respectiva carteira junto da Comissão da Carteira e Ética (CCE). Mesmo sem algum respaldo da Lei, o assessor de comunicação é responsável pelo planeamento estratégico da comunicação institucional, elaborando o plano de comunicação, definindo mensagens-chave, posicionamento, além de gerir a imagem e a reputação da organização.

Actua também na relação com a imprensa; assegura a produção de conteúdos, como discursos, artigos, comunicados, relatórios institucionais, bem como o media training para gestores e porta-vozes para alinhar às directrizes estratégicas e fortalecer a cultura organizacional.

Enquanto o jornalista serve ao interesse público e à verdade factual, o assessor de comunicação trabalha em defesa dos interesses legítimos da organização que representa, dentro dos limites éticos e legais. Na prática, a realidade é bem diferente. Embora com a institucionalização da Comissão da Carteira e Ética, se pensasse que a situação tenderia a mudar, ainda está longe de ser uma realidade.

Vários nomes do jornalismo angolano têm sido “multados” por dar voz e rosto a marcas, como Salú Gonçalves, Ernesto Bartolomeu, Amílcar Xavier, Kina Santos, entre outros, mas a questão é ainda mais profunda. Uma das questões que não se cala é a seguinte: Como ficam aqueles profissionais que durante o dia são jornalistas e durante a noite assumem funções de assessoria de comunicação (ou que simultaneamente são jornalistas/assessores), sem dar voz nem rosto, mas trabalham na formulação de estratégias de comunicação para várias instituições? Há ainda aqueles que já não conseguem exercer comunicação institucional, fazem jornalismo puro e utilizam a organização como fonte, a mesma matéria que divulga para o órgão em que trabalha (como jornalista) é a mesma que partilha nos canais oficiais da instituição (em que trabalha como assessor), incluindo o número de caracteres e pontuação.

Essa é uma realidade incontornável, principalmente, nas instituições públicas. Uma tendência que começa a se expandir para o sector privado também, embora com certa restrição. É importante esclarecer que ter na equipa de assessoria jornalista com experiência é bastante vantajoso, principalmente em momentos de crises. O tacto adquirido no jornalismo ajuda para evitar com que a crise tome outras proporções. Como a Lei deixa claro, o grande “iceberg” existente entre a profissão de jornalista e assessor chama-se Ética.

A isso acrescentam-se dois factores principais, nomeadamente a integridade e o financeiro. O conflito de interesse, a quebra de princípios de independência e a violação do dever a imparcialidade constituem a matriz do jornalismo, ou melhor, de qualquer profissão. Podem ser “multados” e “caçados” as carteiras, mas, se não forem íntegros, ainda podem exercer a profissão.

Quando todos lutarmos por uma socieda de íntegra, que defenda princípios e valores, deixaremos de ver jornalistas acumulando funções de assessores e empresas contratando jornalistas em funções. E, se ainda os virmos, saberemos que, pelo menos, depositaram a carteira profissional para exercer a assessoria de comunicação. Enquanto isso não acontecer, nem mesmo a Comissão da Carteira e Ética conseguirá fazer frente a este problema.

O jornalista deve pautar-se pela isenção, enquanto o assessor defende os interesses de seu cliente (organização), o que viola o princípio de independência do jornalista. As normas da ética e da deontologia do jornalismo impedem com que o profissional actue simultaneamente como assessor e jornalista, a fim de salvaguardar a isenção da informação e evitar desempenhar os papéis de jogador e árbitrio ao mesmo tempo.

POR: OLÍVIO DOS SANTOS

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