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A dimensão do supersticioso e a epistemologia da crença em Lucas Katimba – o caso dos contos “Que venha o cadáver” e “O dia em que a cobra morou na Quissangua”

Jornal Opais por Jornal Opais
10 de Março, 2025
Em Opinião

Entre as principais obras a nível de ficção, narrativas prosaicas na praça benguelense no seio dos novos autores situa-se o livro Mutamba e uma obesa na casa Rosa, lançado em 2023 pela editora benguelense Kapa, trata-se de uma colecção de contos do escritor Lucas Katimba e comporta cerca de vinte e quatro contos de natureza diversas onde se sobressaem as narrativas de pendor eróticos e superticiosos.

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Tal como já havíamos afirmado nos textos anterior, o género narrativa por si só constitui uma raridade entre os novos escritores benguelenses devido a factores diversos, logo pouco são os que se arriscam a lançar uma obra desse género.

O nosso intento neste exercício de escrita cinge-se a analisar apenas dois contos onde está assente a epistemologia de crença e a dimensão do superticioso, referimo-nos das narrativas “ Que venha o cadáver” e “ O dia em que a cobra morou na Quissangua” e como este exercício não se reduz em analisar e interpretar ambos contos, mas também apresentar o escritor benguelense Lucas Katimba, somos obrigados a fazer o tradicional sitz im lebem, obviamente de uma forma mais breve, visto que é importante publicitar o autor e a obra em uma sociedade como a nossa em que o mercado do livro é desvalorizado.

Deste modo, Lucas Katimba é dos jovens mais promissores da província de Benguela, uma vez que a sua notoriedade é vista em diferentes áreas; tem a sua imagem associada não apenas a literatura, como também com a educação/ensino e outros âmbitos sociais, é natural do município de Benguela o que justifica o facto de numa leitura horizontal da obra verificarmos que o espaço da maior parte das narrativas é a província de Benguela, constituindo-se o seu espaço de eleição.

Para além desta obra, é também autor da obras “ O discurso secreto dos pássaros” (poesia, CD: 2012) e “ Diários de um forasteiro e outras crónicas” (2018).

Nesta perspectiva, é inegável o contributo do autor em análise e pensamos que conforme os outros autores já por nós apresentados , é necessário fazer com que estes sejam lidos e publicitados a menos de forma local, já que do ponto de vista nacional dependerá de outros factores.

Os contos que nos propomos estudar, ambos trazem aspectos culturais específicos muito ligados a religiosidade, as crenças específicas dos nossos povos, por conseguinte para percebermos a dimensão do supersticioso e as crenças apresentadas ao longo da diegese e sem preconceitos, convém entender o conceito de cultura; segundo Edward B. Taylor, é “todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”.

É uma realidade imaterial mutável, dependendo de factores como espaço, tempo e outros, permitindo assim que as crenças – um dos elementos que envolve a cultura nesta perspectiva – também variem de acordo o povo, assim as crenças dos povos que habitam próximo do mar são diferentes daqueles que vivem nas florestas; tal diferença é verificada nos mitos, canções, lendas, enfim no folclore do povo, isto porque a hierofania adequase ao espaço e tempo.

Essas diferenças perfazem, a meu ver, uma espécie de epistemologia colectiva, mas numa visão de crenças. A superstição é a crença no sobrenatural, a palavra deriva do latim superstitio, derivado de superstare, “manter-se sobre, sobreviver”, indica uma crença irreal que leva a pensar que absurdos têm existência verdadeira (site Origem da Palavra); De acordo o Dicionário Priberam esta palavra pode significar: 1.Sentimento de veneração religiosa fundada no temor ou ignorância e que conduz geralmente ao cumprimento de falsos deveres, a quimeras, ou a uma confiança em coisas ineficazes.

2. Opinião religiosa fundada em preconceitos ou crendices. 3. Presságio que se tira de acidentes e circunstâncias meramente fortuitas.

No conto “ Que venha o cadáver”, com uma acção que ocorre entre o município de Benguela e o Chongorói dentro de uma família e protagonizada pela personagem tio Ngando e os seus filhos, veja: (…) Tio Ngando desde os tempos da guerra civil fratricida da região do Chongorói. Outros seus descendentes tinham feito a fuga habitual para a cidade. Vieram na cidade de Benguela (…), (pg. 67). Há registos do supersticioso.

Na briga do corpo do falecido, ocorre um incidente que se situa na fronteira entre o supersticioso e a realidade.

A briga consistia no facto de enquanto o Tio João preferir que o corpo de seu filho seja enterrado no Chongorói onde acredita encontrará melhor descanço, os filhos do malogrado queriam que o mesmo fosse a enterrar em Benguela, sede, para facilitar a locomoção dos amigos, leia-se: (…) Orientou que levassem o cadáver para o Chongorói.

Seus filhos que eram irmãos de David, bem como os seus netos, estavam convictos que fariam o funeral na cidade de Benguela, por causa da densidade de amigose famílias que tinha na cidade(p. 67). O sobrenatural ocorre aquando da insistências na desobediência dos filhos e netos do sekulu:”

A família, porém, decidiu colocarse em movimento com o cadáver. Tio Ngando com o nervo da teimosia de seus netos , recolheuse no quarto, abriu a mala secreta e mexeu nos seus artefactos.

Tirou um prato branco e encheu de terra, pós uma missanga na mão direita e outra no pescoço, acendeu duas velas vermelhas , pegou uma metade de pau seco, desfez e amarrou em um trapo preto em três nós dois na ponta e um no meio.

Em Umbundu, invocou os espíritos”. (pg. 68) Vêse aqui neste excerto a crença em práticas que ultrapassam a compreensão humana que pejorativamente são chamadas de feitiço. Para constar, a prática “ feiticista” resulta “ O azar sucedeu. O carro avariou noite adentro.

Os três filhos de David não conseguiram prosseguir com a viajem para assistirem ao funeral de seu pai. E gritou consigo próprio, Tio Ngando: – Que venha o cadáver.” O presente conto mais do que demonstrar a existência de práticas sobrenaturais, possui valores axiológicos em relação ao respeito aos mais-velhos.

Outro conto deste livro que nos leva a reflectir sobre as nossas crenças é intitulado por “ O dia em que a cobra morou na Quissangua” em que o superticioso ocorre em volta da personagem Mana Zefa típica vendeira do nosso quotidiano.

Vendia quissangua e era muito requisitada, o narrador dános a entender que a grande adesão das pessoas ao líquido está associado a cobra: “ A velha virou de modo relâmpago a quissangua que se encontrava no balde branco, enquanto a cobra dormia no manto do líquido amarelado.

Ninguém tinha dado pelo médio o animal que persuadiu Eva a comer maçã antes de Adão; quanto mais o animal se mexia , mais aumentava o ímpeto de clientes em busca do sabor do produto.”(p. 69) A personagem.

 

Por: Fernando Tchacupomba

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