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Políticos e sociedade civil reagem aos principais momentos da agenda do estadista americano

A recente visita de 72 horas que o presidente norte-americano, joe Biden, efectuou a angola gerou reflexões, umas divergentes, outras convergentes, sobre temas importantes da realidade angolana que, na opinião de políticos e membros de organizações da Sociedade Civil, ficaram por se abordar com maior profundidade, como é caso da boa governação, direitos humanos e democracia

Neusa Felipe por Neusa Felipe
6 de Dezembro, 2024
Em Política

Os principais momentos que marcaram a visita de Estado do Presidente dos Estados Unidos da América (EUA) à República de Angola fazem o tema de análise por parte de representantes de partidos políticos e das diferentes organizações da Sociedade Civil.

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Considerada como a visita histórica, por se constituir na primeira visita de um Chefe de Estado norte-americano em solo angolano, gerou grandes expectativas e colocou, por alguns dias, Angola no centro das atenções entre os principais assuntos mais comentados do mundo.

Acompanhado de uma vasta de- legação, o líder da maior potência económica e política do mundo esteve, de 2 a 4 de Dezembro em Angola, tendo trabalhado nas províncias de Luanda e Benguela.

Nas suas intervenções, Joe Biden manifestou o interesse na continuidade da parceria Angola/ EUA, anunciou o acréscimo do valor do investimento americano em Angola, garantiu investimento para expansão da infra-estrutura agrícola, solicitou ao seu homólogo, João Lourenço, maior promoção da democracia no país, defendeu a necessidade de aumentar a produção agrícola para que o povo angolano possa comer, reconheceu a contribuição de Angola na história universal, entre outros  pontos cruciais que geram debates entre os angolanos.

Biden não ouviu a voz da oposição

A vice-presidente da UNITA, maior partido na oposição, Arle- te Tchimbinda, lamentou o facto de não se ter criado uma oportu- nidade para um possível encontro entre o Presidente Joe Biden com os partidos políticos na oposição e com outras forças vivas da sociedade angolana.

A responsável comentou ainda a solicitação feita pelo Presidente Biden em se promover maior de- mocracia no país, alegando que os EUA, com todos os pontos negativos que têm, ainda são considerados a maior democracia do mundo, e onde a pluralidade é tida em consideração.

“O Presidente dos EUA vem a Angola e o Presidente angolano não é capaz de organizar um encontro dele com a oposição e com todas as forças vivas do país. Está errado. Para um país que se presa ser de direito e democrático, devia haver a possibilidade de o Presidente Biden ter um encontro, nem que fosse pequeno, para ouvir também a voz da oposição”, disse.

No que respeita à parceria entre Angola e os Estados Unidos, lembrou o facto de o Presidente Biden estar em fim de mandato, augurando que a próxima administração, ao assumir o poder na Casa Branca, possa dar continuidade a esta parceria já estabelecida entre os dois Estados.

Já o secretário-geral da FNLA, Aguiar Laurindo, que também centralizou a sua análise na questão da promoção da democracia, defendeu melhoria nesta questão, principalmente na sua prática, para permitir um convívio salutar entre os angolanos de diferentes estratos sociais. O político espera por benefícios mútuos na parceria entre os dois países.

“Os países africanos precisam aprender a tirar vantagens múltiplas dessas parcerias, e não deixar que apenas o outro lado saia a ganhar. É preciso inverter esse quadro para que, a médio e curto prazo, a população possa sentir os benefícios destes grandes investimentos”, disse.

O presidente da Associação Justiça, Paz e Democracia (AJPD), Serra Bango, que também alinhou nesse pensamento, disse que o que se pretende é que todas as partes envolvidas tenham benefício mútuo. Apontou os Esta- dos Unidos, enquanto investidores, como a parte mais interessada, que economicamente vão tirar dividendos.

Aos demais países africanos envolvidos neste projecto do Corredor do Lobito, como Angola, a Zâmbia, a RDC, a Tanzânia, apelou à criação de estratégias e vi- são, no sentido de aproveitarem este investimento com o recurso de arrecadação aduaneira e potenciar as áreas por onde vai passar o Corredor do Lobito.

“Nós precisamos de nos preparar primeiro, porque, se não estivermos preparados, corremos o risco de perder a dinâmica comercial do Corredor do Lobito”, disse, apelando por maior atenção também para a questão relacionada com a segurança que, a seu ver, poderá ser uma oportunidade para que americanos consigam ter uma presença militar neste Corredor do Lobito com a justificação de proteger os metais preciosos que por lá vão ser transportados.

Promover a democracia

No que respeita à solicitação de promover a democracia, feita pelo Presidente Biden ao Presidente João Lourenço, o analista considera que a mesma vem fora de tempo, visto que o Presidente Lourenço está em período de fim de mandato.

Ainda no âmbito dos pronunciamentos do Presidente Joe Biden, o responsável da AJPD disse que ficou aquém da questão da garantia dos direitos fundamentais dos cidadãos. “Nós achamos, com alguma estranheza, o facto de a delegação norte-americana não ter se posicionado relativamente aos direitos humanos”, sublinhou.

Fazer bom uso dos investimentos

Para o analista político, Sérgio Calundungo, a parceria entre Angola e os Estados Unidos da América tem gerado grandes expectativas, apontando o Corredor do Lobito que tem sido visto como a grande oportunidade para melhorar as condições de vida dos países intervenientes.

Numa das suas intervenções, o Presidente Joe Biden confirmou o investimento de três mil milhões de dólares investidos pela sua administração em projectos estratégicos em Angola.

Para esta questão, Sérgio Calundungo defende maior responsabilidade por parte de Angola, a fim de aproveitar melhor estes investimentos e pro- mover a prosperidade das suas populações. “O impacto desses valores e investimentos vai se sentindo com o tempo”, ressaltou.

O Presidente Biden conhece a realidade de Angola

O coordenador da Associação de Apoio às Iniciativas Colectivas e Individuais das Comunidades (AAICIC), André Augusto, enalteceu o facto de se estar a dinamizar a parceria entre Angola e os EUA, destacando o impacto positivo do Corredor do Lobito, que vai gerar milhares de empregos para os angolanos, apesar de apontar maior vantagem para os americanos, enquanto investidores.

O Presidente Biden defendeu, em seus pronunciamentos, “a necessidade de se aumentar a produção agrícola para que os angolanos possam comer”. Para o responsável da AAICIC, este pronunciamento demonstra ao Governo angolano, que ele não está alheio às petições dos angolanos.

“O Presidente Joe Biden demonstrou que ele é maduro o suficiente para perceber o que está a se passar em Angola, no que ao combate à fome e à pobreza diz respeito. Logo, deu conta de que a carência alimentar que existe no país só se colmata com a diversificação da economia, sobretudo com a aposta na agricultura, quer a familiar como a comercial”, referiu.

Direitos humanos e boa governação

Para Filomeno Vieira Lopes, presidente do Bloco Democrático (BD), e Guilherme Neves, da Associação Mãos Livres, estes temas são necessários para o desenvolvimento do país e deveriam ter uma maior atenção em qualquer parceria entre os dois países importantes, como a questão dos direitos humanos e do desenvolvimento democrático”, afirmou.

Segundo este político, integrante da plataforma sem respaldo legal, Frente Patriótica Unida (FPU), liderada pela UNITA, a relação histórica de exploração e subdesenvolvimento exige um novo paradigma, onde a boa governação e o respeito pelos direitos humanos sejam o foco principal. “Sem mudanças efectivas nesse modelo de relacionamento, não teremos melhores dias”, alertou Filomeno Vieira Lopes, para quem o país caminha para “um estágio muito perigoso” em relação aos temas .

Boa governação como chave para aproveitar investimentos

Por sua vez, Guilherme Neves, jurista, realça a importância de o Executivo angolano estar à altura das oportunidades oferecidas pelas parcerias internacionais. “A questão da boa governação ficou esquecida ou não foi referida directamente.

Mas, nas entrelinhas, quando se diz que é preciso aproveitar e fazer mais, está-se a dizer que o governo deve corresponder aos investimentos dos Estados Unidos”, salientou.

Ademais, apontou que a ausência de um compromisso claro com os direitos humanos e a boa governação pode mesmo comprometer o impacto dos projectos como os investimentos no Corredor do Lobito. “É preciso questionar se estes investimentos vão realmente melhorar a vida das comunidades locais ou se apenas servirão para escoar recursos sem deixar benefícios reais”, concluiu.

Para o Guilherme Neves, o fortalecimento da democracia e o respeito pelos direitos humanos devem merecer prioridade no relacionamento entre Angola e os Estados Unidos, de for- ma a garantir que os investimentos estrangeiros contribuam de forma concreta para o bem-estar das populações angolanas.

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