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Ensaios de coração

Jornal Opais por Jornal Opais
24 de Maio, 2023
Em Opinião

Há muito que o sangue é bombardeado não somente pelo que assegura o fígado, o coração; esse órgão vivo conhece o WhatsApp e o Facebook do Ilustre Século Elástico em que se vive; quem diria que houvesse tal sentimento entre aqueles de cuja afeição não passou da virtualidade?

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Talvez os lexicógrafos tirem um tempo para confeccionar uma enciclopédia sentimental como explicação mais próxima ao caso.

Ou um Anjo, preferivelmente de sexo neutro, venha explicarnos o e-mail correcto para enviar um correio electrónicos à Sua Excelência Existência.

O intento clarificar-se-á: uma compreensão das lacunas que a vida nos impõe, nalguns domínios endógenos.

Há uma fila de espera que clama por uma resposta automatizada.

Quando eu for atingir a velhice, e não é que por desenho político e sagrado todos cheguem lá (?), tenciono que a minha alma transmita a heroicidade, pois tenho travado fortes ventos conjuntos, demograficamente: em que perspectiva mais estratificada posso buscar a discernimento do sentimento sublime, como se escreveu em Coríntios, sem recurso às estratégias rebuscadas por vai da razão: o amor busca a plenitude das coisas, colocando o botão emotivo à parte?

Comecemos, quiçá, por entender que nem Pessoa foi capaz de deixar a lucidez pairar sobre o assunto, em versos. Quem ele era diante disso?

Aliás, é dos temas cujo meu dicionário artístico, no mais fundo de mim, apresenta mais silêncios do que outros adjectivos da oratória.

O que dizer sobre?

Aqui a experiência, como diriam os pesquisadores, é uma condição válida para que se ponha em prática todo conhecimento de variáveis, atributos, inquérito e questionário, tudo para, ao fim de insistências, ter-se a comprovação experimental do saber.

Devia eu tomar o amor, por conseguinte, como uma monografia teórica? Sartre amou Simone Bevoir, por exemplo, com que filosofia, senão por via dialética da própria vida, como existência de um dualismo irreversível?

Chamo, para esse banquete, o escritor francês Jacques Keriguy, para quem as chaves do amor, na infinitude, foram dadas à mulher, no Éden; paradoxalmente, passou ela à reencarnação da figura do Diabo, já que esse, depois, tomou por sua a inteligência humana daquela, dada a si por Divindade.

Esse ser em si do Homem, dizia OSHO, resumo, que faz o amor ser ele, mesmo com as feridas com que o Mundo o monta, agora, não tem nada a ver com as intenções políticas de um Estado em estado de coma pensamental de séculos em séculos.

Há um sinal de caridade, como os católicos preferem, se uma mãe desejar a morte do seu próprio fho, na calada da carência de um pão para acalmar o estômago, um caderno para desenhar o futuro, ou uma bicicleta para conduzir o medo à cova?

Há teorias existencialistas suficientemente capazes que possam encerrar a temática oculta no «eu» de cada um de nós?

Eu, particularmente, poupome.

Nem os pergaminhos que leio, pois, me são suficientes; sobre, realmente, muito pouco sei e ando, nesse inferno assombroso, a tentar compreender se, além do Amor de Minha Mãe, haja Governo algum que me seja capaz de satisfazer.

Carrego essa dúvida, vinte e quatro luas passadas.

Daí que, para não me deixar no esquecimento absoluto, creio amar a alguém, a mim mesmo, num egoísmo artístico improvisado: aprendi, até aqui, que não há o maior sentimento que ultrapasse o gosto pelo meu próprio corpo, ainda que com inutilidade pública forçada pelo contexto.

 

Por: SALVADOR XIMBULIKHA

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