Em declarações ao jornal OPAÍS, a médica e autora angolana, Abiude Ferreira, defendeu maior atenção à saúde mental durante o Setembro Amarelo, alertando para a necessidade de combater o estigma e as interpretações equivocadas que ainda envolvem os transtornos mentais em Angola e noutros contextos africanos.
Segundo a profissional, problemas de saúde mental continuam, em muitos casos, a ser associados à feitiçaria, possessão espiritual, falta de fé ou fraqueza de carácter, o que pode atrasar o acesso de pessoas em sofrimento a cuidados especializados.
No seu livro “Depressão – Uma Jornada Não Contada”, Abiude Ferreira abordou precisamente esta realidade e chama a atenção para situações em que pessoas com sofrimento psicológico profundo são rotuladas com expressões como “foi buscar feitiço”, “está possuída”, “é falta de oração” ou “não tem Deus”.
Para a médica, estas interpretações podem contribuir para que sinais importantes de transtornos mentais sejam ignorados.
Abiude Ferreira explicou que uma depressão grave pode afectar significativamente a vida, o comportamento, o autocuidado e a capacidade de funcionamento de uma pessoa. Em casos mais severos, acrescentou, o indivíduo pode apresentar desorientação, alterações na percepção da realidade, afastamento da família e, em determinadas circunstâncias, acabar em situação de rua.
Perante comportamentos considerados incomuns, a especialista defendeu uma mudança de atitude por parte da sociedade. Em vez do julgamento, a prioridade deve ser identificar se a pessoa está a precisar de ajuda.
”Quando vemos alguém desnorteado, sem cuidados básicos, a falar de forma incoerente ou a comportar-se de maneira incomum, a primeira resposta não deveria ser o julgamento. Deveria ser a preocupação: ‘Esta pessoa precisa de ajuda?’”, questionou.
A médica considera que ainda existe um longo caminho a percorrer na sensibilização da população sobre saúde mental. Para ela, é necessário desconstruir crenças e combater o estigma que leva pessoas em sofrimento psicológico a serem ignoradas, discriminadas ou afastadas, quando podem necessitar de avaliação e acompanhamento profissional.
Abiude Ferreira sublinhou, contudo, que falar de saúde mental e procurar tratamento especializado não significa desvalorizar a fé ou a espiritualidade.
“Saúde mental é uma questão de saúde pública”, defendeu, tendo destacado a importância de reconhecer, avaliar e tratar o sofrimento psicológico com a mesma seriedade dedicada a outras questões de saúde.
No âmbito do Setembro Amarelo, a médica apelou à sociedade para que esteja mais atenta aos sinais de sofrimento psicológico, pratique a escuta sem julgamentos e procure encaminhar as pessoas para profissionais de saúde sempre que necessário.
Para Abiude Ferreira, por detrás de um comportamento considerado “estranho” pode existir alguém em profundo sofrimento.
A especialista concluiu que a informação e a sensibilização são ferramentas fundamentais na prevenção e no cuidado da saúde mental, uma vez que o silêncio e o estigma podem agravar situações que necessitam de intervenção.
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