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“FUGA” DAS ACÁCIAS:“Hoje, em Benguela, procuramos acácias como quem procura agulha num palheiro”, diz pesquisador

O pesquisador histórico-cultural Joaquim Grilo considera inconcebível que Benguela tenha perdido para Luena, província do Moxico, o estatuto de “cidade das acácias rubras”, a ponto de “hoje, em Benguela, procuramos acácias como quem procura agulha num palheiro”, e, por isso, responsabiliza o Governo por esse estado de coisas

Jornal Opais por Jornal Opais
8 de Janeiro, 2025
Em Sociedade

O pesquisador histórico- cultural refere que todas as acácias rubras existentes um pouco pelo país são originárias de Benguela, porque a região foi a primeira cidade a ser arborizada com essa espécie, proveniente da ilha de Madagáscar.

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No passado, nos meses de Outubro, Novembro e Dezembro e Janeiro, a conhecida cidade de Ombaka era colorida, o rubro e o lilás enchiam os olhos de turistas e não só.

Porém, nos dias que correm, Benguela assiste a um cenário que não agrada ao pesquisador, que diz ter proposto, há anos, para encabeçar um programa de arborização com acácias rubras, acolhido, inicialmente, pelo então governador Dumilde das Chagas Rangel, por ter sido exonerado do cargo em 2008, entretanto ignorado pelos sucessores. Joaquim Grilo critica a forma pouco profissional como a administração de Benguela tinha levado a cabo, no quadro da jornada do aniversário, em Maio, uma acção de arborização da cidade com a espécie acácias rubras.

À época, Paula Marisa era titular do órgão do município. “Nós não podemos só plantar árvores em data festiva. Plantação de árvore é contínua, e saber plantar. Isso fica no segredo dos deuses, porque, se eu disser tudo que me vai à alma, vão fazer plágio.

Então, não digo. Tem de haver um indivíduo que saiba como é que se arboriza uma cidade”, aconselha, ao considerar que se está a ter “uma cidade careca. Nós procuramos acácias em Benguela como quem procura agulha num palheiro”.

Insatisfação

Insatisfeito, o pesquisador histórico-cultural considera inconcebível que cidades como a do Kilamba, em Luanda, tenham mais acácias do que a de Benguela. “Estamos a brincar. Camarão que dorme, a onda leva. Nós te- mos que resgatar o nosso estatuto, por excelência, um direito que nos cabe”, considera.

A história por detrás das acácias Joaquim Grilo, que há muito tem engavetado o seu livro “Memórias da Província de Benguela e da sua gente”, por alegada falta de apoio, explicou, na entrevista exclusiva a este jornal, como é que as acácias chegam a Benguela.

O historiador sustenta que, em finais do sé- culo XIX, precisamente no ano de 1846, Manuel Fernando Lopes foi convidado a governar Benguela, tendo ele aceitado a proposta. À época, como primeiro acto da sua acção, ele lançou um programa de arborização das poucas ruas que Benguela tinha, numa fase em que os navios que partissem da Europa para o Oriente vinham para o atlântico, atravessando o cabo da Boa Esperança e adentrando o oceano Índico até chegar às índias, tinham de vir a Benguela para se abastecer de mantimentos.

Alguns marinheiros, sempre que aportavam a Benguela, notavam que o governador do distrito era um amigo da natureza devido à sua acção de arborização em curso. Desta feita, perguntam a Manuel se não estaria interessado em uma espécie de árvore que havia em Madagáscar, por sinal muito linda, ao que ele respondeu positivamente. “Eles trouxeram as primeiras plantas.

Este bisavô do então presidente da República Portuguesa, Higino Craveiro Lopes, plantou as primeiras espécies das Acácias Rubras e começou a se multiplicar. E a cidade, na época das festas, tornava-se uma cidade rubra, por causa das acácias que só florescem nessa época, não é? Benguela ficava ao rubro e começou-se a chamar “cidade das acácias rubras”, sustenta. Entretanto, há uma outra cidade, no então império português, que era Moçambique, capital Lourenço Marques (fundada em 1897), hoje Maputo, que também veio a os- tentar o estatuto de cidade das acácias e jacarandás.

“Hoje também procura-se as acácias rubras em Maputo como quem procura a agulha num palheiro”, considera o pesquisador. Voltando a Benguela, ele sinaliza que o estatuto de cidade das acácias vincou enquanto se teve uma câmara municipal, porque os responsáveis pela arborização se encarregavam de cuidar delas.

Porém, desde que se extinguiu as câmaras, dando lugar aos comissariados, primeiro, e às administrações, até aos dias de hoje, se perderam as experiências de como cuidar de uma acácia rubra, logo não se deu continuidade às espécies, não fossem como homens e, como tal, têm um tempo de vida útil.

“Temos acácias que têm mais de 60 anos. Que eu vi a serem plantadas e a serem rega- das com uma carroça, um tambor e um velhote todos os dias a regarem estas árvores. Temos mais duas espécies de acácias. A amarela e a lilás. A lilás veio da Pérsia (…) Entrámos numa fase que podemos chamar de mbuanja, anarquia…

Qualquer indivíduo planta árvore que quiser, não pode”, disse, para quem a falta de regra tem levado a que se plante espinheiro no centro da cidade. O historiador lembra que a semente para arborizar Luena, província do Moxico, cidade para a qual Benguela perde o estatuto, saiu de Benguela. Um visionário – cujo nome Joaquim Grilo não consegue precisar – gostou da espécie e levou daqui uma semente para florir aquela vila ferroviária do Luena.

“Onde encontrares uma acácia por esta Angola tão grande, que tem um milhão 246 mil 700 quilómetros quadrados, lembra-se do então governador de Benguela, bisavô do presidente Craveiro Lopes, e também tem que lembrar de Madagáscar, que é a maior ilha de África, que fica no Índico, de onde veio a espécie. E de Benguela, para além de ser cidade mãe de cidades, é das acácias rubras”, realça

POR:Constantino Eduardo, em Benguela

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