Numa altura em que Angola vive uma paz efectiva, especialistas e diplomatas recordaram os Acordos de Bicesse, assinados em 31 de Maio de 1991, debatendo o seu impacto, que marcou a história política de Angola e a abertura de caminhos para a conquista da paz e da democracia em Angola
A Academia Diplomática Venâncio de Moura, do Ministério das Relações Exteriores, acolheu, ontem, a realização da Conferência Internacional sobre dos Acordos de Bicesse, no âmbito das celebrações dos 35 anos da sua assinatura.
O evento contou com a presença do antigo primeiro-ministro de Portugal e outros protagonistas que, na primeira pessoa e de viva-voz, partilharam as suas visões e reflexões geradas nas vivências quotidianas de um difícil e complexo processo negocial em busca de uma saída adequada e viável para a instauração da paz em Angola.
Os Acordos de Bicesse assinados em 31 de Maio de 1991, em Portugal, entre o Governo angolano, representado pelo antigo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, e a UNITA, representada por Jonas Malheiro Savimbi, tinham como principal objectivo acabar com a Guerra Civil em Angola após a independência, tendo em vista a criação de um exército único e a realização de eleições multipartidárias.
A negociação e a assinatura dos Acordos de Bicesse decorreu sob mediação de Portugal, representado por José Manuel Durão Bar roso, na altura secretário de Estado dos Assuntos Externos e da Cooperação de Portugal, e sob a observação dos Estados Unidos e da União Soviética.
Durão Barroso foi um dos prelectores no evento e enalteceu, na ocasião, o grande prestígio internacional que Angola alcançou, mesmo depois de ter vivido um período bastante conturbado da sua história. “Uma homenagem ao povo angolano é que estamos aqui a fazer hoje.
Dizer que hoje, quando vemos uma Angola afirmada, soberana, uma Angola que hoje em dia foi aqui dita e bem, tem um prestígio internacional. Uma Angola que é um país respeitado regionalmente e internacionalmente.
Quando pensamos como Angola estava a ser destruída por uma terrível guerra civil, hoje em dia vemos um Estado soberano, consolidado, um Estado respeitado. Eu queria dizer que temos razões para felicitar, em primeiro lugar, o povo angolano, e queria terminar com os meus votos muito sinceros”, disse.
Angola extraiu importantes lições do seu processo político interno Para o ministro angolano das Relações Exteriores, Téte António, a realização desta Conferência sobre os Acordos de Bicesse ganha particular relevância, tendo em consideração o contexto internacional actual, caracterizado por disputas geopolíticas internacionais, que submetem o mundo a um elevado nível de estresse, face à proliferação de conflitos.
O diplomata angolano sublinhou que a República de Angola extraiu importantes lições do seu processo político interno e hoje é um actor decisivo na resolução de conflitos em África e não só.
Téte António lembrou que, fruto das várias iniciativas de paz bem sucedidas, o Presidente da República, João Lourenço, foi designado pelos seus pares da União Africana Campeão para a Paz e Reconciliação em África. “Não foi uma escolha protocolar.
Resultou de um amplo consenso sobre o investimento diplomático que o Estado angolano dedica à causa da paz”, disse. Por seu turno, a vice-presiden te da UNITA, Arlete Chimbinda, disse que os Acordos de Bicesse representaram o ponto de partida para a reconciliação nacional e para a implantação do multipartidarismo em Angola.
Arlete Chimbinda considerou que Bicesse abriu caminho para o diálogo entre angolanos e lançou as bases do pluralismo político e da democracia no país, reconhecendo, no entanto, que o processo registou avanços e recuos, mas sublinhou que os acordos posteriores, como os de Lusaka e do Luena, surgiram como consequência directa do entendimento alcançado em Bicesse.
Chimbinda defendeu a necessidade de preservar a memória histórica do país, reforçando que as novas gerações devem conhecer as causas e consequências do conflito armado para evitar a repetição dos erros do passado.
“Angola estava a precisar de reconciliação dos irmãos desavindos, e foi Bicesse que permitiu que esses irmãos se sentassem à mesa de negociações e construíssem as bases para o pluralismo e para os primeiros passos da democra cia.
Portanto, recordar esses acor dos é de extrema importância para nós, porque temos de ter memória daquilo que fomos, daquilo que somos hoje e daquilo que nós pretendemos ser amanhã”, disse.









