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Uma distinta forma de partilha – a escrita – outra forma comum de compreensão, a leitura (I)

Jornal Opais por Jornal Opais
5 de Fevereiro, 2025
Em Opinião

Entre aqueles que escrevem e aqueles que lêem subsiste uma necessidade, manifesta na reinvenção de formas específicas de aprisionarem (se) e libertarem (se)

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Geralmente, aqueles que se exercitam no domínio da escrita têm ao menos ciência de que tal proeza não subsista só, alguns diriam que procede de um exercício comprometido com a leitura, outros pela necessidade de partilha com destaque para as modalidades da linguagem, todavia, das cogitações possíveis, pode-se dizer que o leitor e o escritor estão conectados e comprometidos, embora nesta quase inseparável união esteja também a manifestação unívoca, particular, em virtude do que cada tem vindo a fazer e, num outro prisma, justificar sua importância. Há uma linguagem que permeia o eu do escritor e move o leitor para um encontro oportuno, visando a descoberta do primeiro pelo segundo.

Esse facto não é impeditivo para aqueles que têm a leitura como fonte de afirmação num contexto histórico-social, enfim, na própria vida. Ademais, com base nas contribuições empíricas e fundamentadas na Psicologia do Desenvolvimento ou das Idades e Psicolinguística, percebe-se que o ciclo evolutivo, principalmente no que ao acto de ler e escrever diz respeito, primeiro as pessoas aprendem a balbuciar, a seguir vão adquirindo formas mais completas na pronúncia das palavras de base: pai e mãe, somente mais tarde das palavras mais complexas.

Já a escrita, condiciona, entre muitos, pela percepção e coordenação motora, surge como acto consequente. É claro que, se visto sob outro prisma, esse processo não é linear para todos, porém, em todos eles, estão presentes os factores internos e externos responsáveis pela apropriação e desenvolvimento da linguagem falada e escrita.

Ao compreender a leitura como encontro oportuno e acto embasado na relação da vontade entre aquele que escreve e aquele que lê mediados pelo conteúdo, o leitor, neste particular, trata-se de um sujeito que se move pelas causas inerentes ao acto de buscar. Todavia de nada vale a leitura de muitos livros, se não se consegue construir e adoptar um posicionamento, uma ideia a favor ou contra ao que se leu.

O escritor-autor ao tornar pública sua visão de mundo, delimitando- a numa temática, torna-se aberto, revela, mas também torna- se num enigma, pois é preciso não descurar de que as ideias contidas numa obra podem reluzir ou obscurecer uma perspectiva dela ou da própria vida. Daí que se faz míster dizer que escrever e ler é como que um aprisionar-se e libertar-se em dosagem mínima, média e elevada.

Quem escreve, sob a veia daquilo que norteia seu exercício, partilha visões múltiplas, convicções, grandezas, também fragilidades (…), todas na linhagem da possibilidade perceptiva das lentes e habilidades do leitor, dentro das ciências da alma, do espírito, da natureza e demais fenómenos observáveis e não observáveis simplesmente, pois que, em ciência, o que vale num tempo pode não valer no outro, e sobre isto já dissera Demo (2012) nela os fenómenos são moldáveis e falseáveis.

Na senda do exposto, há quem escreve um livro com finalidade de fazer algo, porém acaba chamando atenção para outra realidade, às vezes, numa que em nada tinha a ver com o estado e pretensões que tomaram conta do exercício investigativo, escrito e não só.

Os elementos que entrelaçam o escritor-autor ao leitor são compreendidos e identificados pela existência e valor proeminente no exercício de ambos, pelo simples facto do escritor afirmar-se, evidenciar-se por via dos outros, os leitores e juntos diferenciam-se. Dir-se-ia que essa distinção ocorre pela observância quer ao nível da prática quer da ideia, porque ao ser materializada pura e simplesmente, ou seja, com a elevação do primeiro, escritor- autor, estaria fadado a um tal fracasso e ao puro esquecimento, por não ser lido.

Facto que, apesar de nefasto, acompanha alguns que se exercitam neste domínio e que por algum motivo não foram lidos, outros, por não serem compreendidos num dado contexto.

Percebe-se que o escritor-autor e o leitor são seres cuja relação é, realmente, justificável e aprazível quando serve para elucidar os níveis de obscuridade que se encontram em cada linha da produção escrita e como forma validativa da afirmação em vários contextos do sujeito leitor.

Chega a ser detestável quando por via da escrita constroem-se juízos que, sob o olhar da separação obra e realidade, destrata-se o ser, sendo visto como péssimo, o que também depende da visão do leitor, sobre o que pode colher na obra.

A relação física entre o escritor e o leitor dá luz e torna concreto o abstracto, em certa medida, pois que é próprio do homem a contradição, embora reconheça-se que esta não deva incidir ou transpassar a essência da sua existência, pois que à luz de Rhoden (2013), o primeiro precede e é superior ao segundo.

 

Por: FERNANDO ADELINO 

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