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Teimoso sofre – Vidas de Ninguém (XII)

Domingos Bento por Domingos Bento
20 de Fevereiro, 2026
Em Opinião

Mas que atrevimento do Kikito, que era apenas um simples professor de um colégio no bairro, meter-se logo com a Martucha, engenheira de formação e que trabalhava numa das melhores empresas do sector energético do país.Depois de a moça descobrir que o dinheiro do Kikito nem chegava para ele próprio apanhar táxi durante trinta dias, deu-lhe um chute e expulsou-o do condomínio de elevado padrão onde viviam, na zona alta da cidade.

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Coitadinha da tia Gigi, que vendia jinguba no passeio da estrada da Borracheira, mãe do Kikito, teve de receber, de braços abertos, o filho que regressou apenas com a roupa no corpo e parte dos seus livros cheios de emendas, dentro de uma mochila fusca. Só depois de dias é que se descobriu que, afinal, o casamento já havia terminado meses antes. Mas o Kikito, por orgulho, preferiu não sair de casa, mesmo sendo vaiado e enxotado do condomínio.

Era vergonha que ele tinha de regressar à humilde casa da tia Gigi, no bairro que o viu nascer, crescer e a retomar, depois de abandonar a família e os amigos. Fazia três anos que a tia Gigi já não via o filho, tudo porque ele se havia apegado à família da esposa, mesmo sendo alertado várias vezes pelo primo Ziladas de que mulher não é família. Como era teimoso, duvidou e provou bem do veneno quando a relação não é construída com base nos princípios e valores que o dinheiro não paga.E a família da Martucha tinha muito dinheiro, mas não tinha princípios, porque não se humilha um genro da forma como o Kikito foi tratado.

Ele, que era forte, com quase dois metros de altura, potente e cheio de vida, regressou pior que um cão sem dono; completamente abatido, magro, barba desarrumada, sujo e desesperado.

Naquele dia, quem o viu chegar foi o Tezinho, irmão do Relogi, que engravidou a Joaninha da rua dos Morrecos. O gajo do Tezinho, grande cunanga, como gostava muito de ficar na rua a controlar a vida dos outros que madrugavam para ir trabalhar, foi chamar a tia Gigi às pressas. “Tia Gigi, Tia Gigi, Tia Gigi, o Kikito, o Kikito”, gritava sem parar o Tezinho, que por pouco não matava a senhora de tensão, porque ela pensou que algo mais grave teria acontecido com o filho. “Txe, miúdo, é devagar.

Vais matar a senhora. Saiba transmitir recado. Essa senhora assim, que já nem está a aguentar-se com as dores do reumatismo, você ainda vem assustá-la dessa forma, seu sacana”, ralhava uma cliente que naquele instante estava a comprar bombó com jinguba na banca da tia Gigi, que rapidamente arrumou as coisas e correu para casa para ver o que estava a acontecer. Entretanto, o coração de mãe não aguentou ao ver o filho encostado ao canto da parede velha, completamente irreconhecível. “Oh, afinal de contas ainda conheces o caminho da casa de onde saíste.

A casa de que você fugiu por vergonha. Pensavas que mulher é família, não é? Eu sou tua mãe, guardei-te nove meses na minha barriga. Nunca poderias fazer-me passar por essa vergonha toda”, lamentava a tia Gigi, com lágrimas nos olhos, enquanto pousava no chão a pequena bacia de jinguba.

De seguida, por causa da fofoquice da vizinhança, que volta e meia ia espreitar para saber o que estava a acontecer, a tia Gigi levou o Kikito até ao seu quarto para desabafar. A velha sabia que o quarto da mãe, por mais pobre que seja, tem um feitiço natural, um aconchego de ternura, uma luz própria, uma protecção divina e uma naturalidade capaz de curar todas as dores.

A cama dela poderia ser de areia, de pedra, de madeira ou de lata, mas estava sempre limpa, fresca, gostosa e com um cheiro suave que rapidamente embalava. É impressionante, mas o quarto da tia Gigi, mesmo sem ventilador, estava sempre fresco em tempo quente e aquecido em tempo frio. No quarto dela não se sentia fome, não se via o tempo a passar nem se sentia dor. A vela por cima da banca, a Bíblia por baixo das almofadas e o paracetamol que ela guardava no monte de pastas que tinha no quarto fortaleceram a coragem do Kikito, que de seguida contou que a Martucha o traíra com outro homem da classe social dela.

Por causa da disparidade social, em casa ele não era tido nem achado. Contou que já estava havia quase um ano a passar a noite na marquise de casa, porque a Martucha havia trocado a fechadura da porta principal. Para se alimentar, eram os guardas do condomínio que partilhavam a comida com ele.

Disse que suportava tudo aquilo por causa da filha única que tiveram no casamento e porque tinha vergonha de regressar ao bairro, devido aos insultos dos vizinhos, amigos e familiares que ele próprio desprezou quando estava de boa com a Martucha. Ele, que nem consumia álcool, passou a ser um grande beberrão para esquecer a Martucha, que dias depois se casou com outro homem. “Você é teimoso, agora estás a sofrer. Todo o mundo aqui te falava que a Martucha não era mulher para ti.

Mas você seguiu a mbunda, as pernas grossas e os bens da família dela. E ela usoute como se fosses um cão e agora deitou-te fora. Vai lá mas é tirar essas roupas sujas, tomar banho e chamar o Paito para te cortar esse cabelo que está parece é na mata onde o teu pai foi morto nos confrontos de 1992, seu sacana”, repudiou a mãe, enquanto caminhava em direcção ao quintal para acender o fogareiro e aquecer o molho de calulu que sobrara do jantar do dia anterior.

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