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REFLEXÃOSOCIOLÓGICAS: Angola-para onde vamos

Jornal Opais por Jornal Opais
19 de Janeiro, 2024
Em Opinião

(José Saramago – sic.: “Não somos bons e é necessário termos coragem para o reconhecer”

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Em Angola anda-se de um lado para outro, em reuniões , em palestras com especialistas externos, em fóruns, encontros, seminários, formações, viaja-se para dentro e para fora do país em busca de soluções que venham construir uma Angola melhor, é o desejo de todos.

Mas Angola precisa urgentemente de fazer suas tarefas de casa mais importantes pois os investidores, externos e internos, sabem da realidade angolana não só pelas cidadãos, como pela mídia e também pelas embaixadas, mesmo que alguns a tentem escamotear, e estes prováveis investidores, os mais sérios, não vão nem podem arriscar seus capitais financeiros pois certamente muito custou a ganhar.

Angola precisa de atitudes mais rigorosas diante das tarefas de casa difíceis de resolver e estas mudanças exigem mentalidades políticas, ambientais e sociais de muita responsabilidade e excelência pois é preciso construir uma economia mais consciente com novos paradigmas, neste século XXI.

Não bastam ordens dadas em gabinetes distantes das realidades sociais, ambientais e económicas, pois estas ordens não são facilmente cumpridas e, além disso e muito importante, os actuis empresários nacionais com empresas sustentáveis também devem ser ouvidos.

As soluções para Angola não são novas pois outros países já as construíram e desenvolveram há muito tempo e basta um olhar mais atento para os países nórdicos, países mais desenvolvidos no conjunto dos países planetários.

Não se pretende aqui falar de grandes empresas multinacionais, todas elas existindo com o único propósito de amealhar dinheiro a qualquer custo e para satisfação de seus accionistas que vivem sumptuosamente em outros países tecnologicamente mais avançados com certeza, mesmo que estas empresas digam estar interessadas num desenvolvimento dos países aonde se inserem.

Estas multinacionais podem até gerar empregos mas falar de desenvolvimento sustentado é outro patamar. Uma empresa multinacional de tabaco justifica seus investimentos dizendo que vai gerar muitos empregos, no campo e na sua industria.

Com certeza há geração de empregos mas e as outras implicações? É preciso aprofundar estas questões para não se continuar a repetirem os mesmos erros. O que é realmente desenvolvimento sustentado?

Também é preciso falar dos pequenos e médios empresários angolanos ou estrangeiros competentes e que trazem desenvolvimento sustentado, pessoas que não aceitam o “mais ou menos para inglês ver”.

Um empresário competente, escrupuloso, responsável, criativo, seja nacional ou estrangeiro, não aceita a mediocridade como padrão para um desenvolvimento sustentado de sua empresa.

Muitas vezes, vêm-se alguns empresários a mudarem constantemente de objectivos em suas empresas.

Um comerciante ou fornecedor de serviços vira agricultor ou outra coisa qualquer de acordo com os financiamentos que o governo vai disponibilizando em determinadas áreas ou seja, não são empresários com objectivos sustentáveis. Há uma mistura constante dos objectivos de certas empresas de acordo com um ganhar mais fácil e rápido.

É necessário perceber que o caminho para o desenvolvimento da economia angolana de forma sustentada, é fazer primeiro as tarefas de casa políticas, económicas, sociais e ambientais, antes ou em paralelo com outras actividades internas e externas.

É necessário dar o exemplo, falando menos e fazendo mais. de forma equilibrada e sustentada, projectos para o presente e com resultados palpáveis.

Ajudar as famílias com oito mil e quinhentos kwanzas (dez dólares) mensais não é construir sustentadamente a nação pois além disso, muitas vezes, os homens dessas famílias depauperadas e desestruturadas em todos os sentidos, abusando do género feminino e das crianças, apoderam-se desses parcos valores financeiros e os destinam para outros fins.

Ajudar as famílias e o país, é desenvolver acções e soluções económicas sustentáveis no presente tais como a valorização da moeda Kwanza e consequente aumento do poder de compra de todos os cidadãos, sem aumentar a inflação e investindo em energias eléctricas alternativas em todas as casas para que os cidadãos tenham acesso à informação e desenvolvam mais sua cultura, mesmo morando em lugares recônditos do país.

Um cidadão morando no interior do país mas com acesso à energia eléctrica e com acesso a uma televisão, pode melhorar seus conhecimentos e desenvolver-se mais a si e ao país.

Num país aonde existe ouro bastante, é o caso de Angola, não se entende porquê esse ouro, bem explorado, não está a servir de lastro para valorizar a moeda nacional e aumentar o poder de compra de todos os cidadãos sem inflacionar a economia.

O que adianta querer que venham empresários estrangeiros ou empresários nacionais investir na economia angolana se logo em seguida as dificuldades são tantas que qualquer pessoa de bom senso desiste de seus empreendimentos e até se arrepende de os ter feito?

Qual a decisão mais correcta que um agricultor deve tomar, ou um produtor ou um industrial que quer produzir mais, por exemplo, tomate mas depois sabe que não vai vender rapidamente seus produtos pois os cidadãos não têm poder de compra suficiente ou porque não há vias para escoar os produtos ou porque as empresas revendedoras, por exemplo supermercados, que podem comprar seus produtos para revenda, não querem pagar o preço justo e pagar à vista?

E este produto alimentar, e muitos outros, têm um prazo de validade muito curto.

As estradas principais e secundárias continuam a ser um transtorno enorme para a economia angolana após tantos anos e tantos gastos e após este tempo os bairros ao redor dos centros das cidades continuam com suas ruas esburacadas e sem asfalto e sem estradas de pedra que permitam uma circulação normal.

Os países de economias planificadas e centralizadas pelo Estado, economias que consideram à partida que “tudo pertence a todos”, foram todos à falência, União Soviética, Coreia do Norte, Cuba, Venezuela, Europa do Leste e tantos outros.

A China, economia planificada e muito centralizada, não foi à falência mas quem desobedece às ordens do executivo corre sérios riscos.

A China tem um padrão industrial medíocre, na média, apesar de também ter um outro lado de elevada qualidade mas muitos dos produtos chineses comprados fora da China são de qualidade inferior e desrespeitam as leis internacionais e suas empresas que prestaram serviços em Angola nem sempre fizeram uma construção de estradas e edifícios com qualidade internacional mas estão a ser bem pagas com o petróleo angolano.

Não se discute aqui se outros tipos de economias são melhores ou piores ou se também têm outros problemas pois certamente todas as actuais economias mundiais têm muitos problemas principalmente o de ganhar dinheiro a qualquer custo, o da ganância extremada e o consumismo exagerado que esgota as matérias-primas mundiais e já se ultrapassou o ponto de equilíbrio de consumo dessas matériasprimas.

Angola precisa urgentemente de fazer seus trabalhos de casa, construindo-se bases fundamentais políticas, económicas, sociais e ambientais modernas, para depois ser possível construir uma economia mais sustentável e atrair realmente novos investimentos internos e externos e dando-lhes garantias.

Esse arrumar da casa tem de ser feito com urgência pois esta nação denominada Angola, no computo geral das nações, é e continua a ser um grande diamante em bruto com excepcionais condições para um desenvolvimento económico, social, ambiental sustentável.

“É necessário reconhecer que não somos bons e ter coragem para assumir esta realidade angolana pois a humildade é o primeiro passo para se aprender a ser sapiente”.

 

Por: VALDEMAR FERREIRA RIBEIRO

*Economista. Ambientalista. Empresário Industrial

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