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Reconciliação nacional: entre o idealizado e a realidade que se requer

Jornal OPaís por Jornal OPaís
17 de Novembro, 2025
Em Opinião

Na semana finda, Angola foi palco do Congresso da Reconciliação Nacional, promovido pela Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST). À primeira vista, tal iniciativa pareceu um acto nobre e oportuno. Contudo, a sua condução e composição suscitaram dúvidas quanto à sua verdadeira natureza: reconciliação no verdadeiro sentido ou mera encenação política? A forte presença de figuras ligadas à política, por si só, nada de mal teria, caso fosse equilibrada com a presença da comunidade teológica e académica em geral. Mas diante de tal cenário, contrário ao exposto, deu ao encontro um tom mais político-partidário do que pastoral. Faltou o essencial: a profunda reflexão, a escuta, a confissão, o perdão e o compromisso ético-moral – pilares fundamentais para a reconciliação genuína.

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O ambiente pareceu mais um reencontro de antigos camaradas ideológicos do que a busca nacional pela cura das feridas do passado. Teologicamente, a reconciliação é uma missão espiritual, pois, desde os primórdios foi uma acção da iniciativa divina, a qual o mesmo Deus quer que os humanos a exercitem sem hipocrisia ou com parcialidade.

Nesta visão, Paulo escreve: “Deus nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação” (2 Coríntios 5:18). As pessoas vocacionadas para esta nobre missão só têm de ter a vida ligada com Deus, no caso a Igreja. Significa que, se assim for, ela estará a exercer o seu papel sempre que se dispuser em realizar actividades que visem promover a sã convivência.

Tal cumprimento não se deve limitar numa realização formal, mas num espírito profético! Quer isto dizer, a Igreja, portanto, deve ser voz profética, chamando à verdade e ao arrependimento, e não perder tempo com discursos protocolares (que já são tantos e tediosos!); ela deve fazer diferente, não se calando diante da gritante carência de amor ao próximo, harmonia, justiça, paz espiritual e todas virtudes que constituem a vida em uma sociedade saudável. Quando a Igreja se cala ou se torna cúmplice do poder temporal, perde a sua autoridade moral e espiritual. Outro detalhe é relacionado à imprensa.

Curiosamente, parte da imprensa focou-se mais na ausência do Presidente da República, esquecendo-se que foi ele próprio quem iniciou passos concretos para a reconciliação, como a entrega das ossadas do líder fundador da UNITA, Dr. Jonas Savimbi e de outras figuras ligadas a este partido, e não só, bem como o processo do “Abraçar e Perdoar” que resultou na criação da Comissão de Reconciliação em Memória das Vítimas de Conflitos Políticos (CIVICOP), só para citar alguns.

O que se esperava do congresso era o aprofundamento espiritual desses esforços, e não a sua instrumentalização política. Falar de reconciliação nacional é incoerente quando, dentro dos próprios partidos e movimentos cívicos, a intolerância, o regionalismo e o preconceito prevalecem.

O caso do jovem Massanga, militante da UNITA, acusado de ser “candidato do regime” por manifestar vontade de concorrer internamente para a liderança do seu partido, ilustra a hipocrisia que ainda domina o nosso cenário sócio político. Faltar-nos-ia tempo de falar das intrigas, quase eternas, existentes no seio de vários outros partidos políticos e movimentos cívicos, desde a sua base ao topo, quer movidas por razões de querelas ou mesmo outros fins menos abonatórios para a construção de uma verdadeira nação.

Nas redes sociais, a situação é semelhante: quem pensa diferente é atacado e silenciado. Faltam-nos as culturas de tolerância, respeito, inclusão, empatia e afeição. O lema do evento “EIS QUE FAÇO NOVAS TODAS AS COISAS” (Apocalipse 21:5) é inspirador, mas ficou sem corpo espiritual, pois fazer todas as coisas novas requer arrependimento e perdão – não apenas discursos e fotografias. As imagens alegres do congresso parecem ter ficado na sala onde foram tiradas; foi uma idealização bem-intencionada, porém, sem eco na vida real.

O Congresso da Reconciliação teria sido um marco histórico, mas acabou parecendo apenas mais um exercício de retórica e nostalgia. A reconciliação que Angola precisa é de conversão nacional, de partidos e consciências. Só quando formos capazes de perdoar e acolher o outro com sinceridade, poderemos afirmar com verdade: “Eis que faço novas todas as coisas”.

Por: KATEVE BAMBI

Teólogo, TADS, Jurista

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