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Preconceito linguístico: Uma realidade à luz do português falado em Angola

Jornal OPaís por Jornal OPaís
23 de Fevereiro, 2026
Em Opinião

Ouve-se, em quase todas as regiões do país, que a Língua Portuguesa é muito difícil e que os Angolanos, senão todos, não a sabem falar desde os contextos formais aos informais. Neste âmbito, pretendemos abordar por que estes posicionamentos nos têm levado, volta e meia, ao preconceito linguístico, tudo pelo equívoco que se tem entre a língua e a gramática normativa.

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A língua é, segundo Cunha e Cintra (2017), um sistema gramatical pertencente a um grupo de indivíduos. Enquanto expressão da consciência de uma colectividade, a língua é o meio por que ela concebe o mundo que a cerca e sobre ele age. Utilização social da faculdade da linguagem, criação da sociedade, não pode ser imutável; ao contrário, tem de viver em perpétua evolução, paralela à do organismo social que a criou.

A gramática normativa, a que se apresenta sem finalidade científica, e sim pedagógica, recomenda como se deve falar e escrever segundo o uso e a autoridade dos escritores correctos, dos gramáticos e dicionaristas prestigiados. A par do exposto acima, é comum, nos dias de hoje, criticar a forma oral de comunicar de cada falante da Língua Portuguesa em Angola, mas poucos procuram investigar os porquês deste e daquele modo de se expressar, julgando o certo do errado.

Sem dúvida, a língua falada pela grande parte da população angolana é o português, porém nem todos se comunicam por meio da normapadrão que a rege, razão pela qual existe um índice elevado de diversidade e de variações no uso da mesma no nosso país, perpassando pelas seguintes áreas:

•Léxico: conjunto de todas as palavras que fazem parte de uma língua.
•Fonologia: estudo dos sons da língua, perpassando pela sua capacidade de combinação até a sua capacidade de distinção.
•Morfologia: estudo da palavra e das suas formas.
•Sintaxe: estudo das funções, relações e combinações entre os elementos da frase.
•Semântica: área que trata dos processos de produção dos sentidos.

A única modalidade compreensível em quase todos os países que têm o português como ou uma das línguas oficiais é a da lingua no registo escrito, pois a ortografia, por ser diferente da oralidade, passa a ser praticamente a mesma, havendo pouquíssima disparidade.

Não obstante, devemos ter em conta que um mesmo texto lido por um Angolano, inclusive a sua fala, vai ser completamente diferente de um falante de Portugal, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

Em contrapartida, há necessidade de compreendermos que a situação linguística de Angola é marcada pelo contacto directo com as suas línguas locais (umbundu, kimbundu, kikongo, entre outras), gerando, assim, os empréstimos entre as línguas, os interlinguísticos, um processo de passagem de uma unidade lexical de uma língua para outra. Costa, citado por Neto (2012: 26), afirma que a existência da Língua Portuguesa, em Angola, ocorre numa sociedade caracterizada por uma forte estratificação linguística, partilhando o mesmo espaço sociológico com os outros idiomas geneticamente distintos.

É esse facto que faz com que Angola seja um país plurilingue, tal como a maioria dos países africanos, possuindo uma composição sociolinguística muito complexa e heterogénea. Tendo em conta o acima referenciado, o uso de uma língua não se restringe ao domínio e à aplicabilidade das normas gramaticais, mas em ser capaz de usá-la de forma adequada ao contexto da comunicação, variando de discurso nas situações necessárias, para se fazer entender por meio dos vários níveis de língua.

No entanto, uma língua vai, sim, sofrendo transformações saindo de um lugar para outro, como no caso de Portugal para Angola, daí haver variedades no acto comunicativo entre os falantes de ambos os países, tendo em conta a região, os aspectos sociais, políticos, económicos, culturais e o nível de escolaridade.

Para tanto, devemos aceitar e respeitar as formas de comunicar fora do português padrão, porque elas existem por razões anteriormente referenciadas, e de que o julgamento entre o certo e errado não nos leve ao preconceito linguístico.

Por: FELICIANO ANTÓNIO DE CASTRO (FAC)

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