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Patrice Lumumba: o mito congolês que aterrorizou colonos portugueses em Angola

Paulo Sérgio por Paulo Sérgio
15 de Agosto, 2025
Em Opinião

Um nome, uma figura de proa (ou talvez uma marca) transformouse, quase involuntariamente, em sinónimo de pavor e de esperança, para lá das fronteiras do seu país. Bastava gritarse por ele e, se os ouvintes fossem de origem europeia, instalava-se o pânico. Entre colonos belgas e portugueses, adultos e crianças, a simples evocação do nome “Lumumba” despertava medo, como se anunciasse um perigo iminente.

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Para a elite colonial, Patrice Émery Lumumba representava dor, ameaça e insubmissão. Aos olhos de muitos portugueses, nascidos na metrópole ou descendentes, ele simbolizava a rebelião que poderia abalar os privilégios que desfrutavam neste vasto território que hoje é Angola. Havia quem, tomado pelo pânico, abandonasse tudo numa fuga desesperada, com um único objectivo: salvar a vida.

Esse medo não nasceu em Angola, mas no vizinho Congo Belga, actual República Democrática do Congo (RDC). Para o compreender, é preciso recuar a 1961, ano em que começou oficialmente a Luta de Libertação, que culminaria, 14 anos depois, com a proclamação da Independência Nacional. A história começa na antiga colónia belga, a cerca de 250 km da fronteira com o município do Bembe, na antiga Carmona (hoje Uíge).

As acções desencadeadas pelo movimento independentista congolês, liderado por um até então pouco conhecido Patrice Lumumba, entre 1958 e 1960 provocaram a fuga de colonos (não só belgas, mas também de outras nacionalidades) para o território português.

O jovem nascido em Onalua, a 2 de Julho de 1925, com o nome Élias Okit’Asombo, fundou em 1958 o Movimento Nacional Congolês (MNC) que rapidamente se ornou a principal força nacionalista e fez dele protagonista das negociações que levaram à independência do Congo.

A sua mensagem espalhou-se rapidamente por África, pois, para alguns, era um herói invulnerável; para outros, um “demónio” africano imune a balas, dotado de um espírito justiceiro. Daí que, para os europeus, o simples anúncio de que Lumumba poderia estar a caminho da sua comunidade justificava abandonar tudo.

O nacionalista Pedro Benga Lima “Foguetão” recorda, na sua autobiografia, que muitas famílias chegaram ao Bembe “com crianças nuas e descalças, porque não tiveram tempo para nada”.

Conscientes do impacto que tal mensagem teria no seio da comunidade nativa, que já dava sinais de ambicionar também ser livre e independente, as autoridades portuguesas tentaram contorná-la, fazendo vincar o mito de superioridade do homem branco contra os negros. Assim, a narrativa do “perigo Lumumba” era cuidadosamente explorada para desencorajar qualquer veleidade de revolta.

Mas a mensagem sobre o que realmente se havia passado escapava ao controlo oficial, dado que os seus funcionários autóctones mantinham contacto com familiares e amigos, e a rádio clandestina trazia notícias do Congo para as aldeias e matas angolanas.

Razão pela qual, no Bembe, qualquer recusa em obedecer a um patrão branco podia ser interpretada como influência directa de Lumumba, rotulando o infractor de “discípulo do Diabo”. O medo era tão impregnado que até pesadelos com a figura do líder congolês eram relatados como ameaças reais.

Alguns colonos chegavam a patrulhar armados, esperando um inimigo que, na verdade, nunca pisou Angola. Não era para menos. Para muitos angolanos envolvidos na luta anti-colonial, Lumumba era um símbolo.

Não só libertara o seu país do domínio belga, como defendia uma mensagem anti-imperialista e pan-africanista. Após conquistar a independência o seu país, foi eleito primeiro-ministro, mas o seu mandato foi bastante curto e ficou marcado por uma profunda crise interna e externa, agravada com os desafios que teve de lidar com a secessão de Katanga, rica em recursos minerais.

O seu alegado alinhamento à União Soviética, considerado como ameaça às potências coloniais, acabou por torná-lo um alvo a abater, a todo custo. Engendraram uma conspiração internacional que visou desacreditar o seu governo e só terminou com o seu assassinato em 1960, aos 35 anos, tornando-se mártir para os povos oprimidos.

Embora o início da luta armada em Angola tenha ocorrido depois de ele ter sido enviado, contra a sua vontade, para outra dimensão da vida, a sua influência ressoava também nas matas angolanas, entre guerrilheiros e refugiados.

Segundo testemunho do embaixador João Miranda, a sua voz, transmitida a partir de Kinshasa, chegava a todos os recantos de Angola, reforçando o ânimo de resistência.

Em resposta, a propaganda portuguesa popularizou expressões como “isto aqui não é um Congo”, associando independência a caos, na tentativa de desencorajar o nacionalismo local.

Porém, a vontade de se libertar era imparável, pelo que, na prática, para os colonos, a maioria dos africanos era admirador de Lumumba. Pois, tal sentimento surgiu através de mensagens transmitidas também através de músicas, o que ajudou a perpetuar o mito.

Algumas canções congolesas exaltavam a coragem do líder e dos seus correligionários, e até em Angola, artistas como Prado Paim (galardoado com disco de ouro em 1974) eternizaram a sua figura, reforçando os laços entre dois povos divididos artificialmente pela Conferência de Berlim.

Hoje, recordar Lumumba é mais que um exercício histórico: é relembrar um aviso que deixou à humanidade: “Sem dignidade não há liberdade, sem justiça não há dignidade e sem independência não há homens livres.”

Assim, mais do que nunca, cabe aos governos da República Democrática do Congo e de Angola honrar esse espírito, garantindo condições dignas aos seus povos e preservando a memória dos que fizeram da liberdade a sua causa.

*Jornalista

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