Os recentes confrontos registados no Uíge, entre população e efectivos da Polícia Nacional, que deixaram várias pessoas feridas, não podem ser tratados como mais um episódio passageiro da vida política. Não me cabe apontar culpados antes que os factos sejam devidamente apurados.
Cabe-me, enquanto cidadã, perguntar por que razão continuamos a assistir a situações em que uma actividade política termina com cidadãos feridos. Há imagens que incomodam, feridas que doem e famílias que voltam para casa com medo. Angola já pagou caro demais pelas guerras. Já chorámos demais. Já enterrámos demais. Chega de transformar a política numa arena onde o cidadão comum acaba sempre por pagar a factura. Em Angola, parece que já criámos uma tradição para tudo.
Acontece um incidente, surgem feridos e, antes mesmo de conhecermos todas as circunstâncias, começa a procura pelo culpado. Um acusa o outro. O outro devolve a acusação. Um diz que foi provocado, o outro diz que foi provocado primeiro. E assim seguimos, entre comunicados, declarações, reacções e contra-reacções, enquanto quase ninguém pergunta pelo cidadão que foi ferido, pela família que ficou assustada ou pelo jovem que regressou a casa sem saber por que razão uma disputa política acabou por atingir a sua vida. No fim, a culpa parece ter sempre duas direcções, mas a dor tem apenas uma.
A de quem sofreu. É precisamente aqui que precisamos de falar da maturidade dos partidos da nossa história política. A idade deveria trazer sabedoria. A experiência deveria ensinar contenção. A memória deveria recomendar prudência. Quem conhece as consequências do confronto deveria ser o primeiro a evitar que pequenas disputas se transformem em grandes problemas. Não podemos continuar a assistir os partidos com décadas de história política, a comportarem-se como se cada provocação exigisse, imediatamente, uma resposta. Há momentos em que responder é necessário, mas há outros em que a verdadeira demonstração de força está precisamente em saber não responder.
Não precisamos de voltar às velhas rixas políticas que dividiram famílias, comunidades e amizades. A nossa história já nos ensinou, com sangue e lágrimas, que quando os políticos se enfrentam, quase nunca são eles os primeiros a pagar o preço. São os militantes, os jovens, os vendedores, os trabalhadores, os filhos, as mães e os pais que ficam no meio da confusão. São pessoas que acreditam numa bandeira, num projecto ou simplesmente porque exercem um direito.
E quando regressam feridas ou, pior ainda, quando não regressam, fica uma pergunta que ninguém deveria conseguir ignorar: quem cuidará dessas famílias? Angola tem várias forças políticas, diferentes sensibilidades e cidadãos com visões distintas sobre o futuro do país. É precisamente essa diversidade que uma democracia deve proteger. O cidadão não deve ser obrigado a escolher entre dois lados para ser respeitado.
Pode ser de A, de B, de C ou de nenhum deles. Pode mudar de opinião. Pode discordar. Pode apoiar hoje quem não apoiava ontem. E nada disso deveria transformar um angolano em inimigo de outro angolano. A política deve dis- putar ideias, não produzir inimigos. O adversário político não é um inimigo nacional. É apenas alguém que pensa diferente.
Ao partido que governa, com ou sem culpa, a cobrança será sempre maior. Não necessariamente porque lhe devam ser atribuídas todas as responsabilidades por aquilo que acontece no país, mas porque quem exerce o poder carrega uma responsabilidade acrescida na preservação da estabilidade, no exemplo institucional e na forma como reage aos seus adversários. Os Setenta anos de existência política devem significar experiência, sabedoria e também serenidade.
Conhecer a própria força e fazer jus ao slogan “Somos milhões e contra milhões ninguém combate…” O poder também se mede pela capacidade de contenção. Há momentos em que a melhor resposta é uma resposta institucional, ponderada e proporcional. Há momentos em que é preciso dei- xar que a oposição fale, critique, organize e dispute espaço políti- co. Isso não diminui quem governa. Pelo contrário, demonstra segurança.
Um partido que acredita na sua história e na sua capacidade de mobilização deve ser suficientemente seguro. Um embondeiro não treme ao vento. Mas a responsabilidade não pode ser apenas de quem governa. Aos partidos da oposição também cabe uma enorme responsabilidade. Lutar pelo poder não significa colocar os próprios militantes em risco. Um partido que convoca cidadãos para um acto político deve preocupar-se igualmente com a segurança dessas pessoas. Não basta mobilizar, discursar, levantar bandeiras e depois, quando acontecem confrontos, procurar apenas um culpado.
Os militantes não podem ser apenas números de mobilização, fotografias de multidões ou vozes para encher praças. São seres humanos. Têm famílias, filhos, sonhos e uma vida para continuar depois de cada acto político. A democracia não pode pedir ao cidadão que entregue a sua vida como prova de fidelidade partidária. Nessa acção, não há informações de que os dirigentes foram atin- gidos. Mas o povo foi. As imagens não mentem.
O que leva a crer que a acção foi contra o povo. Até quem só passava, levou por tabela. E agora, o rosto rachado do jovem, quem paga a plástica? Como resolver a cicatriz em seu rosto? A perna alvejada, o braço ferido? Quem assume? Vai sarar uma ferida, mas não uma cicatriz. Os lesados terão uma marca eterna, no corpo e na alma. Logo, é importante também respeitar as orientações das autoridades. E não se impor, porque o resultado da rebelião é conhecido por todos.
Pais, mães e filhos. Aquém mais vão atingir? Lembrar que são estes que formam a socie- dade. Que seus parentes ao vê-los, começam a se perguntar se vale a pena defender um partido que não os defende nem protege. Também precisamos de abandonar a ideia de que a política deve ser uma espécie de campeonato em que cada lado procura hu- milhar o outro. Não precisamos de dirigentes que ensinem o povo a odiar, mas, a discordar.
Há uma diferença enorme entre dizer “não concordo contigo” e dizer “tu és meu inimigo”. A democracia vive da primeira frase e começa a mor- rer quando a segunda passa a dominar o discurso público. Podemos votar diferente e continuar a cumprimentar-nos. Podemos defender projectos diferentes e, ain- da assim, querer que Angola prospere. A diferença política não pre- cisa de produzir inimizade social. Aos que ainda alimentam a ideia de que Angola precisa de viver permanentemente em clima de confronto, precisam entender que esta geração não quer essa herança. Agradecemos aos homens e mulheres que lutaram pela independência.
Honramos os que tom- baram pela pátria. Respeitamos os que lutaram pela paz. Não apagaremos a história, porque um povo que esquece de onde veio corre o risco de repetir os mesmos erros. Mas uma coisa é honrar a história, outra, completamente diferente, é condenar as novas gerações a repeti-la. Os nossos filhos não têm de pagar uma guerra que não começaram. Eles merecem receber uma Angola, onde as diferenças políticas sejam uma riqueza, não uma ameaça.
Nem todos chegarão ao poder. Alguns poderão passar anos, déca- das ou até uma vida inteira a tentar chegar lá sem conseguir. Isso faz parte da democracia. O poder não é uma herança familiar, uma propriedade privada ou uma cadeira que alguém deve abandonar apenas porque outro decidiu que chegou a sua vez. Mas também não é licença para quem lá está a espezinhar quem está fora, abusar da força ou tratar a oposição como uma ameaça à existência do Estado. Uns devem aprender a disputar o poder com responsabilidade, outros devem aprender a exercê- lo com humildade.
Todos devem compreender que o poder passa, mas as consequências dos actos políticos podem permanecer durante gerações. Chega de discursos que acordam fantasmas de um passado que custou demasiado caro. Chega de transformar cada incidente numa oportunidade para acusar o outro e cada acusação numa razão para responder com mais acusação. Angola não pede uma nova guerra. Angola pede maturidade. Pede respeito.
Pede que sejam capazes de olhar para a história e dizer: já chega, os nossos filhos não precisam de viver aquilo que nós vivemos. Esta geração quer um legado diferente. Quer partidos que joguem limpo, adversários que se respeitem, quer um povo que nunca mais tenha de morrer por causa da luta de outros. Que os acontecimentos do Uíge sirvam, pelo menos, para alguma coisa. Que sirvam para lembrar aos partidos que, atrás das bandeiras, existem pessoas.
Que sirvam para lembrar às autoridades que o exercício da autoridade deve caminhar sempre acompanhado pela responsabilidade e pelo respeito pelos cidadãos. Que sirvam para lembrar aos dirigentes que os seus militantes não são peças descartáveis. E que sirvam para lembrar a todos nós que Angola pertence a todos, não apenas aos que estão no poder ou aos que querem chegar ao poder. Conquistamos a independência. Acabamos com as guerras internas.
Abraçamos paz. Agora, precisamos de aprender a viver plenamente a democracia sem transformar a diferença políti- ca numa ameaça à vida. Talvez o verdadeiro legado da nossa geração seja este. Ensinar aos nossos filhos que podemos pensar diferente sem nos odiarmos, disputar o poder sem nos destruirmos e construir Angola sem voltar a pagar, com vidas humanas, as guerras dos outros. Mahezo!
POR: YARA SIMÃO





