Em Angola, o diploma universitário ainda é visto como o bilhete dourado para a estabilidade financeira. As famílias sacrificam poupanças, os estudantes investem anos e a sociedade celebra a formatura como o fim da incerteza. Mas, quando o recém-licenciado bate às portas das empresas ou tenta montar o seu primeiro negócio, a realidade impõe uma pergunta incómoda: o diploma garante emprego ou apenas adia a crise? Os indicadores do mercado de trabalho e o feedback do sector privado apontam para um descompasso silencioso.
Enquanto as universidades formam milhares de licenciados em áreas saturadas ou excessivamente teóricas, as empresas queixam- se da falta de técnicos qualificados: eletricistas industriais, operadores de maquinaria, técnicos de laboratório, programadores aplicados, gestores de logística e profissionais de saúde intermédios. O problema não é a falta de inteligência. É o desalinhamento entre o currículo e a cadeia de valor real. O diploma académico prepara para pensar.
A formação técnica prepara para executar. E a economia angolana, em fase de diversificação e reconstrução infraestrutural, precisa desesperadamente de execução. Retorno sobre o investimento (ROI) educativo não se mede apenas pelo salário inicial. Mede-se pela velocidade de inserção no mercado, pela autonomia para gerar rendimento e pela resiliência face a choques económicos.
Um curso técnico de 1 a 2 anos, bem desenhado e certificado, coloca o jovem no mercado em meses, com remuneração competitiva e possibilidade de escalar para empreendedorismo especializado. Um percurso universitário de 4 a 5 anos, sem estágios reais, sem orientação de carreira e sem competências digitais ou transversais, pode resultar em anos de sub emprego ou emigração forçada. Isto não desvaloriza a academia.
Exige que ela se modernize e se ligue ao tecido produtivo. A mudança passa por três eixos concretos: Primeiro, valorização social e ins- titucional do ensino técnico-profissional, deixando de ser visto como “plano B” e passando a ser reconhecido como via estratégica de empregabilidade. Segundo, integração obrigatória de estágios supervisionados, projectos aplicados e certificação por competências, não apenas por frequência ou exame teórico. Terceiro, diálogo permanente entre institutos de formação, associações empresariais e sector financeiro para alinhar ofertas às reais necessidades do mercado.
O Estado pode acelerar este processo com bolsas vinculadas a sectores prioritários, com incentivos fiscais a empresas que contratem e formem técnicos, e com uma comunicação clara que restaure a dignidade do ensino profissional. Para o jovem e para a família, a decisão deve ser estratégica, não emocional. Antes de escolher um curso, pergunte: “Quem contrata esta competência? Qual o salário médio de entrada? Há espaço para especialização ou para abrir o meu próprio negócio?”
A literacia educativa é o primeiro passo para evitar dívidas de formação e garantir retorno real. Para as empresas, investir em programas de aprendizagem dual e em certificação interna é mais rentável do que esperar pelo candidato perfeito. A economia não se transforma com diplomas emoldurados. Transforma-se com competências que resolvem problemas, com mãos que constroem, com mentes que adaptam. O futuro de Angola não está em escolher entre academia e técnica. Está em integrálas com propósito.
POR: ABRAÃO HUNGULO





