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O uso do calão não implica necessariamente uma marginalização da língua

Jornal OpaisPor Jornal Opais
24 de Março, 2025
Em Opinião
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Tempo de Leitura: 3 mins de leitura
O uso do calão não implica  necessariamente uma  marginalização da língua

Numa agradável tarde de Fevereiro, após o solo luandense ter sido agraciado com a visita da chuva, decidi aproveitar as últimas horas do dia assistindo à televisão.

No entanto, pouco tempo depois, aquela tarde, que parecia ser promissora, transformou-se em uma tarde insípida e sem graça, quando um jurista, cujo nome prefiro omitir por questões éticas, afirmou, de forma categórica, que “era proibido e errado um estudante de Língua Portuguesa ou áreas afins utilizar o calão”. Vale destacar que tal afirmação foi feita em um programa de uma televisão pública.

O tema em discussão era voltado à Sociolinguística. Ora bem, o facto de um estudante de Língua Portuguesa ou áreas afins recorrer, numa determinada situação, ao calão para expressar as suas ideias, pensamentos e sentimentos não significa que ele esteja a violar o código linguístico, ou melhor, o uso do calão não se configura, necessariamente, como afastamento, marginalização ou transgressão da Língua Portuguesa.

E isto não se aplica apenas às pessoas estudadas ou letradas, mas, sim, a todos os usuários ou falantes dela. Todo o falante do Português é livre de se servir de qualquer variedade presente neste idioma (incluindo o calão, só para reforçar), desde que a situação ou contexto comunicativo se justifique.

Dito de outro modo, toda vez que quisermos ser facilmente percebidos, devemos fazer a gentileza de adequarmos a língua à situação de comunicação em que nos encontramos, à relação que temos com os nossos interlocutores e, claro, ao assunto tratado, uma vez que a variante padrão ou norma-padrão não é capaz de responder, com eficácia e eficiência, a todas situações de comunicação apresentadas na Língua Portuguesa, a julgar-se pelas variações a que as línguas naturais estão submetidas, com maior realce a variações diastráticas (socioculturais) e diafásicas (níveis de língua).

Por isso, se estivermos em contextos mais informais, como em conversas descontraídas com amigos ou indivíduos que fazem parte do nosso círculo social, podemos muito bem nos despir do registo culto (formalismo linguístico) e, consequentemente, servir-nos do calão ou gíria, pois estas modalidades de linguagem podem actuar como uma forma de transmitir afinidade, expressividade e pertencimento a um grupo.

De igual modo, se estivermos inseridos num ambiente mais formal, por exemplo, entrevista de emprego, conferência, sala de aula, redacção de textos académicos ou documentos oficiais, devemos usar a norma-padrão.

Só não devemos nos esquecer de que, à luz da Sociolinguística, nenhuma variedade linguística é superior ou melhor à outra, embora algumas (e seus receptivos utentes) tendem a ser alvos de tratamento discriminado e preconceituoso por parte de certos gramáticos tradicionalistas, como é o caso concreto do calão ou gíria.

No final das contas, todas elas concorrem para um único fim: o de promover fluência, harmonia e unidade na comunicação. Cabe a nós, os falantes, adequarmo-las ao seu real e verdadeiro contexto de uso, promovendo uma linguagem equilibrada, moderada e acessível para todos.

E, já agora, lanço o meu apelo aos directores e gestores de órgãos de informação e comunicação social no sentido de terem uma atenção redobrada na selecção de convidados, isto é, que sejam os estudiosos das ciências das linguagem a abordarem os assuntos linguísticos e sucessivamente.

Afinal, saber nadar ou ter barco não é motivo suficiente para alguém ser considerado como pescador e, curiosamente, seleccionado para falar de pesca.

 

Por: Joaquim Augusto Adolfo 

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