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OPAÍS

O sabor da dipanda e a identidade reconhecida

Jornal Opaispor Jornal Opais
5 de Dezembro, 2024
Em Opinião
O sabor da dipanda e a identidade reconhecida

Era Sábado, quando resolvi aproveitar fazer dos pequenos cidadãos reconhecidos nacionalmente. Agendada que estava a pretensão de ver ultrapassada o pendente, rumei para a Loja de Registos situada nas imediações do Patriota.

Como era de esperar, por volta das 6 horas da manhã, o parque de estacionamento, bem como a varanda da Loja de Registos estavam totalmente tomados pela multidão.

Relatos e testemunhos davam conta de que aquele lugar começou a ser inundado pela população no início das 3 horas da manhã, com objectivos díspares, tendo em conta as (des) informações recebidas, pois, se por um lado, alguns deslocaram-se àquele lugar devidamente preparados, com o Assento de Nascimento, Boletim de Nascimento e Bilhete de Identidade dos progenitores, outros fizeram-no com o intento de adquirir os documentos supracitados, sem o prévio conhecimento de que a Campanha da Dipanda, que decorre todos os Sábados, durante o mês de Novembro, serve apenas para a obtenção do Bilhete de Identidade dos menores de 17 anos, sendo que todos os outros serviços seriam prestados em dias normais de trabalho.

No local, visivelmente agastados, cansados e sem qualquer agente para passar os devidos esclarecimentos, o tumulto instalou-se por volta das 7 horas e alguns minutos, altura em que se fazia ao local uma funcionária do Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos. Grande parte da população pretendia informações e estas chegavam em “gotas”, provenientes de várias bocas, inclusive dos agentes da autoprotecção física.

Uns falavam A e outros B. Sem uma lista de presença, tampouco uma fila ou bicha, a confusão instalou-se, como tem sido praxe na urbe do salva-se quem poder. Vários questionamentos fervilhavam na minha cachola, entre críticas ao mau serviço prestado e as sugestões de melhorias para a prestação de um serviço que se idealizou num mês que simboliza a nossa independência.

Dos vários questionamentos, ressaltam os seguintes: 1. Por que não se veiculou a informação nos mais variados órgãos de comunicação, tal como tem sido feito com os demais processos como Eleições, Censo e outros, com os devidos esclarecimentos ou enviando mensagens de texto, com a ajuda das nossas operadoras de telefonia móvel? 2.

Tratando-se de uma campanha, por que não foi feita, à semelhança do que se faz com as campanhas do Ministério da Saúde, isto é, montando tendas fora das quatro paredes, muito cedo e com técnicos devidamente sensibilizados e seleccionados para este fim, deixando as pessoas totalmente satisfeitas, sem poder perder noites ou madrugadas diante das Lojas de Registo, fazendo com que as pessoas sintam verdadeiramente os frutos da independência? O atendimento começou a partir das 8 horas, como era expectável, mas a esperança de alguns, como foi o meu caso, morria a cada instante que olhávamos para o número de presentes que ultrapassava 200 indivíduos, sem o mínimo de esclarecimento e atendimento desejados.

Como sempre, alguns efectivos da Polícia Nacional e das Forças Armadas, e uns poucos privilegiados estavam na linha da frente, com o atendimento antecipado, por razões que só as partes domina(va) m. Eu, particularmente, já tinha sido alertado pela esposa, que dias antes se fez ao local, com objectivo de levantar Assentos de Nascimento dos petizes, que solicitara na semana anterior.

O alerta sobre o possível abarrotamento nos dias da campanha chegou a ser dado por uma das funcionárias. Apesar de ter programado requerer os Bilhetes de Identidade no Município da Quiçama, por considerar que naquela circunscrição ficaria mais fácil, tendo em conta o reduzido índice populacional, escapar da distância era um dos intentos.

Sem sucesso, pelas razões acima adiantadas, rumei com os petizes, acompanhado pela esposa, em direcção ao Município da Quiçama, quando eram 10 horas. Foi ao repartir as 24 horas do dia ao meio, que avistamos a sede municipal, recebidos de braços abertos pela Mamã Muxima.

Os garotos mostraram-se radiantes com os encantos naturais vislumbrados ao longo do trajecto, e com a beleza natural que preenche o local de destino, o verde dos imbondeiros, a diversidade da vegetação, o plantio à beira da estrada, o relevo, o rio e as suas ilhas, o Forte da Muxima e o seu magnífico Santuário, as lagoas que podem ser observadas à distância e, claro, o que há de bom, a nossa boa gastronomia para degustar e demais iguarias e frutas, isto é, o cacusso, o mamão, a manga de grande qualidade, a cana-de-açúcar e tantos outros alimentos e as bebidas naturais da terra.

A pequena Kyame, aluna da 2.ª Classe, encantada com o que via, considerou que, “toda a natureza que nos rodeia, retratada na disciplina de Estudos do Meio, estava na Quiçama”. Rimos de forma escancarada e aproveitamos para nos divertir bastante, afinal, não foi apenas um dia para tratar os Bilhetes de Identidade, mas também para turismo que valeu a pena.

Postos na Loja de Registos, que se encontra dentro da única infra-estrutura que alberga quase todos os serviços da Administração Municipal, fomos recebidos com boas vindas e júbilos. Éramos apenas dois encarregados, nós que nos fazíamos acompanhar de duas crianças, e mais uma senhora acompanhada da filha, havendo naquele instante, três utentes por atender.

Os meninos receberam como prendas, bolachas, sumos e balões, uma oferta do Ministério de tutela, o que garantiu alegria aos mesmos. Ou seja, como se diz na gíria, tiveram o dia ganho. Em conversas com o senhor Rufino Gonçalves, Chefe da Repartição de Identificação Civil e Criminal da Administração Municipal da Quiçama, soube que em média atendem 5 a 15 utentes aos Sábados, um número irrisório, se comparado com o que têm tido acesso, através do grupo do WhatsApp, entre os colegas do mesmo órgão ou envolvidos na campanha em causa.

Rufino Gonçalves chegou mesmo a afirmar que, se tivessem um autocarro disponível, iriam às zonas com mais necessidades em busca de utentes que, apesar de sentirem a necessidade de obter o Bilhete de Identidade, têm dificuldades de se fazer ao local.

Falava com um misto de alegria e tristeza. Alegria em nos atender e tristeza em saber que muitos gostariam de estar na mesma condição que os atendidos naquele instante, mas que estavam impossibilitados.

– “Passe a mensagem aos demais, mano. Aqui está totalmente vazio, queremos atender mais gente” – rematou. É aproveitando este remate final que gostaria de sugerir que nas próximas ocasiões, massificássemos mais a informação e criássemos condições objectivas, no sentido de ver mais cidadãos a sentirem o sabor da Dipanda e a identidade reconhecida, pois, este contributo, parecendo que não, pode ser uma grande valia para o bem-estar psicológico de muitos. Bem-haja!

 

Por: Valentino Frederico

*Psicólogo do Trabalho e das Organizações

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