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O português angolano existe – falta-lhe

Jornal Opaispor Jornal Opais
25 de Fevereiro, 2025
Em Opinião

A língua é mais do que um meio de comunicação; é um símbolo de identidade, um reflexo da cultura e da história de um povo. Em Angola, o português, embora herdado do período colonial, já não é o mesmo que se fala em Lisboa ou no Porto.

Foi moldado pelo génio linguístico do povo angolano, pelas influências das línguas nacionais e pelo contexto sociocultural único do país. O português angolano existe, está vivo nas ruas, nos mercados, nos tribunais, nas escolas, mas carece de reconhecimento oficial. Não se trata de uma simples variação informal ou de um “erro” a ser corrigido pelas gramáticas lusitanas.

O português angolano já apresenta traços próprios que o distinguem do português europeu e do brasileiro, tanto no plano fonético, como no léxico e na sintaxe. São marcas de um povo que se apropriou da língua e a transformou num instrumento próprio de expressão.

No entanto, a ausência de uma norma oficial que legitime essa realidade linguística tem consequências graves: perpetua a ideia de que a fala do angolano é incorrecta, reforça uma dependência cultural desnecessária e limita a produção científica e literária numa variante que, na prática, é a mais utilizada no quotidiano.

Moçambique já avança nesse sentido, com estudos que buscam estabelecer uma norma linguística própria, adaptada à realidade moçambicana. Angola, como nação soberana, não pode continuar a depender das regras linguísticas estabelecidas em Portugal para definir a sua própria forma de falar e escrever.

É fundamental que sejam criadas leis que tornem possível a oficialização do português angolano. Tal medida permitirá que seja ensinado nas escolas, utilizado na administração pública e reconhecido nos espaços formais sem preconceitos, ao contrário do que temos vivenciado.

A oficialização do português angolano não significa romper laços com os outros países de língua portuguesa, mas sim fortalecer a identidade nacional dentro desse espaço linguístico comum.

A materialização desse reconhecimento não é apenas uma questão académica, mas um passo essencial para que a língua falada pelo povo seja legitimada e protegida.

Uma Angola que reconhece a sua forma própria de falar é uma Angola que se afirma culturalmente, que se respeita e que constrói um futuro mais independente.

Portanto, concluímos e apelamos para que se deixe de lado a insegurança linguística e se dê ao português angolano o estatuto que ele merece.

Cabe ao Estado, aos académicos e aos legisladores avançarem com esta discussão e assegurarem que a língua falada pelo povo seja igualmente reconhecida pela lei.

 

Por: JOÃO NGUMBE

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